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A ameaça-fantasma

por Paul Krugman, Publicado em 27 de Novembro de 2009   
Em relação ao desemprego, um conselheiro avisou que se corre mais riscos fazendo a menos do que fazendo a mais. É triste e é pena que a administração Obama tenha perdido isso de vista
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A caminho de um novo New Deal, acontece uma coisa engraçada. Há um ano, a única coisa que tínhamos de temer era o próprio medo; hoje, a doutrina reinante em Washington parece ser "tenham medo, muito medo".

Que aconteceu? Bom, não há dúvida de que os centristas, no Senado, têm atrapalhado os esforços para salvar a economia. Mas tudo indica que, para além de ter de enfrentar oposição política, Obama e o seu círculo têm sido intimidados por histórias de pa-pões vindas de Wall Street.

Veja-se a diferença entre o que os conselheiros de Obama diziam em vésperas da tomada de posse e o que ele próprio diz agora.

Em Dezembro de 2008, Lawrence Summers, que se tornaria pouco depois o economista mais graduado da nova administração, apela a uma acção decisiva. "Muitos peritos", alertava ele, "são de opinião que o desemprego pode chegar aos 10% até ao fim do próximo ano." Em vista disso, continuava, "fazer a menos é mais perigoso que fazer a mais."

Dez meses mais tarde, o desemprego chegava aos 10,2%, o que pressupõe que, apesar desse aviso, a administração não fez o suficiente para criar novos empregos. Poderia esperar-se uma firme resolução de fazer mais.

No entanto, numa entrevista recente à Fox News, o presidente parecia hesitante e nervoso quanto à política económica. Falou vagamente da possibilidade de serem criados incentivos fiscais à criação de emprego. Porém, "é importante reconhecer", continuou ele, "que, se continuarmos a fazer crescer a dívida, mesmo num processo de recuperação, numa dada altura as pessoas poderiam perder a confiança na economia dos EUA de tal modo que nos veríamos perante uma recessão de 'duplo mergulho' (double-dip), ou seja, de uma quebra seguida de outra". O quê? Hã?

A maioria dos economistas com quem falei acredita que o grande risco para a recuperação decorre da inadequação dos esforços governamentais: o estímulo foi insuficiente e perderá efeito no próximo ano, ao mesmo tempo que o desemprego está a destruir a confiança, tanto dos consumidores como das empresas.

Agora é politicamente difícil a administração Obama lançar um segundo estímulo em grande escala. Ainda assim, deveria tentar canalizar tanta ajuda para a economia quanto possível.

Contudo, em vez disso, está a fazer coro com os que dizem que não conseguimos criar mais emprego. E um relatório do politico.com sugere que a redução do défice, e não a criação de emprego, será a pedra-de-toque do seu primeiro discurso do estado da União. O que aconteceu?

Demorei algum tempo a resolver este enigma. Mas as preocupações expressas por Obama tornam-se compreensíveis se se partir do princípio de que ele vê as coisas, directa ou indirectamente, pelo prisma de Wall Street.

Desde que começou a Grande Recessão, os analistas económicos e algumas (não todas) as empresas de Wall Street têm vindo a avisar que os esforços para combater a depressão podem provocar males económicos ainda maiores. Sobretudo, dizem, é indiferente que o governo dos EUA tenha presentemente a capacidade de contrair empréstimos a longo prazo a taxas de juro surpreendentemente baixas: um dia destes, os défices orçamentais conduzirão ao colapso da confiança dos investidores e as taxas subirão em flecha. E foi desta última afirmação de Obama que se fez eco nessa entrevista à Fox News. Terá razão em preocupar-se?

É verdade que já se registaram picos nas taxas de juro a longo prazo, a mais notável das quais em 1994. Todavia, nesse ano a economia dos EUA estava a criar 300 mil novos empregos por mês e a Reserva Federal estava a aumentar constante e progressivamente as taxas de curto prazo. É difícil imaginar porque se passaria algo semelhante agora, com a economia ainda a perder postos de trabalho e a Reserva Federal a não dar quaisquer indicações de querer aumentar as taxas de juro num futuro próximo.

Um modelo melhor, em minha opinião, é o Japão da década de 1990, que acumulou persistentemente grandes défices, mas tinha também uma economia persistentemente deprimida - e viu as taxas de juro de longo prazo caírem quase constantemente. Há boas hipóteses de os responsáveis estarem aterrorizados por uma ameaça-fantasma, uma ameaça que só existe nas cabeças deles.

E não deveríamos pensar na fonte? Os analistas que agora alertam para o aumento das taxas de juro são tendencialmente os mesmos que insistiam, meses depois do princípio da Grande Recessão, que a maior ameaça para a economia era a inflação. E não esqueçamos que Wall Street - que, inexplicavelmente, não detectou a maior bolha imobiliária da história - tem um palmarés longe de sofrível no que diz respeito a previsões.

Ainda assim, aceitemos que fazer mais no combate ao desemprego de dois algarismos acarreta algum risco de minar a confiança dos mercados obrigacionistas. O risco tem de ser equa- cionado com a certeza de um sofrimento em massa se não se fizer mais - e com a possibilidade de se verificar uma quebra de confiança entre os trabalhadores e as empresas.

E Summers acertou à primeira: perante a maior catástrofe económica desde a Grande Depressão, correm-se muito mais riscos fazendo a menos do que fazendo a mais. É triste e é pena que a administração tenha perdido isso de vista.

Economista Nobel 2008

Exclusivo i/The New York Times


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