Entrevista a Mário Bettencourt Resendes.

"Quando o interesse manda violar a lei, o jornalista deve fazê-lo" - vídeo

Publicado em 27 de Novembro de 2009   
Provedor do "DN" fala de Sócrates, da política e da justiça. Diz que o jornalismo está melhor. E acredita no futuro de Portugal
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Se tivesse de decidir hoje o seu futuro profissional, decidir que curso tirar, colocaria o jornalismo como primeira opção?

Eu vim parar ao jornalismo um pouco por acaso. Estava no quinto ano da licenciatura em Gestão de Empresas e Economia quando acontece o 25 de Abril. A faculdade entrou em convulsão, as aulas praticamente pararam e surgiu a oportunidade de ir para Paris tirar um curso de Jornalismo. Decidi ir mais por Paris do que propriamente pelo curso. Mas apesar de ter chegado assim ao jornalismo gostei desde o princípio e não pensei mais em voltar para a área de gestão.

Não terminou o curso?

De Economia não. Fiz o curso de jornalismo em Paris e ingressei na profissão até hoje. Iniciei a carreira em 1975, curiosamente no "DN", onde fiz um estágio complementar de um curso de Jornalismo que fiz em Paris. No final desse estágio saí para fazer parte da equipa que fundou o "Jornal Novo", que teve um papel importante na luta pela democracia e pelo pluralismo, contra a tentativa de instauração de um poder autoritário de esquerda em Portugal. Era uma altura em que o jornalismo era uma parte empenhada no combate político, vivia- -se um período revolucionário. Depois de acalmadas as águas desse período revolucionário, estive uns meses numa revista semanal chamada "Opção" e em Novembro de 1976 ingressei nos quadros do "DN".

Ou seja, não cumpriu um sonho de criança quando chegou à profissão?

Não, não... Confesso que nunca me tinha passado tal coisa pela cabeça. Só mais tarde, por influência do Mário Mesquita, que na altura era director do "DN" e que me motivou a tirar esse curso.

Olhando para trás, que mais mudou na essência do jornalismo?

Muita coisa. Não só em Portugal como em todo o mundo. A profissionalização e o grau de organização empresarial das empresas jornalísticas, que hoje em dia são grupos empresariais profissionais bem estruturados e que obedecem a regras de gestão de empresas. Acho que isso é positivo. Por outro lado, acho que em Portugal, hoje em dia, independentemente dos problemas que possamos sentir, as condições para o exercício da profissão são claramente superiores. Mesmo que hoje em dia se tenha perdido alguma dedicação romântica a uma causa relacionada com um pilar fundamental das sociedades democráticas. É bom que aqueles que hoje exercem o jornalismo não se esqueçam que esta profissão não é igual às outras: uma sociedade que não conte com uma imprensa livre e independente é uma sociedade menos livre e fragilizada.

O jornalismo não perdeu com essa visão menos romântica da profissão?

A sofisticação das empresas jornalísticas, aliada à introdução das novas tecnologias, criou cenários de grande competição que se reflectem também, de forma compreensível, na perda desse espírito romântico. Mas pode perder-se esse romantismo desde que não se perca a missão fundamental de escrutínio por parte da comunicação social de eventuais abusos de poder, seja ele político, seja económico, social ou religioso. Se o jornalista mantiver o cerne do seu trabalho nessa lógica de escrutínio de abusos de poder, cumprirá aquela que é a missão fundamental do jornalismo numa sociedade livre e democrática.

Não subscreve a teoria dos que dizem que hoje se faz pior jornalismo?

É preciso distinguir o período conjuntural que vivemos de uma apreciação de fundo. A comunicação social vive uma crise grave em Portugal, que não deriva apenas dos seus problemas próprios, mas sobretudo da crise económica global, que se reflectiu numa queda dramática do investimento publicitário. Ora as empresas jornalísticas que vivam dificuldades financeiras dificilmente poderão proporcionar aos seus profissionais as condições de trabalho necessárias para um exercício de qualidade. Mas é uma questão conjuntural. Se distinguirmos isso de uma avaliação genérica da qualidade do jornalismo que hoje se faz em Portugal em relação ao que acontecia há 25 anos, há mais qualidade. A capacidade de escrutínio é maior, ainda se faz jornalismo de investigação e há maior independência em relação ao poder político por parte dos meios.

Acha mesmo que há maior independência face ao poder político, com todas as polémicas deste ano?

As pressões do poder político sobre a comunicação social são uma marca das sociedades democráticas. O que é importante é que quem está à frente dos meios de comunicação tenha capacidade de resistir a essas pressões. É uma dialéctica normal. Quem está no poder político tende a pressionar para conseguir um tratamento mais favorável ou menos penalizador, sobretudo quando as circunstâncias de governação são mais difíceis. Se a governação corre bem, não se conhecem períodos de crispação. Mas se as coisas correm mal e surge um período de maior crítica, cria-se naturalmente um am-biente de maior crispação. No entanto, aquilo que tem acontecido em Portugal, do meu ponto de vista, não permite concluir que a comunicação social está mais dependente do poder político.

Mas sente que há no governo o tal "impulso irresistível de controlar"?

Como observador, o que posso dizer é que em todos os governos há sinais de menor conforto na convivência com uma imprensa mais crítica ou que exerça o seu poder de escrutínio de forma mais activa. Neste caso, a própria personalidade do primeiro-ministro, conjugada com o crescimento de dificuldades na actividade governativa, criou no poder político muito menor capacidade de encaixe relativamente ao exercício da actividade jornalística. O que não significa que eu avalize ou considere bom jornalismo todo o jornalismo feito em Portugal. Há modelos de exercício jornalístico com os quais não me identifico, segundo os meus padrões de qualidade. Mas quero viver num país onde haja a liberdade de praticar todos os tipos de jornalismo, desde que respeite a lei.

Achou legítima a crítica que Sócrates fez a um noticiário da TVI?

Nenhum homem político com traquejo e experiência deveria chegar ao ponto de fazer críticas personalizadas ou nominativas a um órgão de comunicação social ou a um jornalista. A experiência mostra que é uma batalha destinada a ter um desfecho desfavorável ao poder político. Independentemente de poder ter razões de queixa justificadas. Mas em Portugal, infelizmente, estamos longe de uma praxis de convivência menos acalorada entre o poder político e a comunicação social.

Disse "por razões justificadas que tenha". Nesse caso concreto, Sócrates tinha razões contra o Jornal da TVI?

Eu disse "por razões justificadas que tenha" porque também não faço do jornalismo um retrato de um grupo de anjos celestiais ou de heróis românticos em defesa da liberdade.

Os jornalistas são demasiado sensíveis à crítica?

Não só são, indiscutivelmente, demasiado sensíveis à crítica, como normalmente não concedem a outros grupos sociais o direito a uma crítica ao mesmo nível da que eles próprios acham que podem exercer. Têm um espírito corporativo um pouco exagerado e quando por acaso explode alguma polémica entre jornalistas cai o carmo e a trindade. Os jornalistas deviam ser mais abertos ao escrutínio externo da sua actividade.

A recente polémica entre o "Público" e o "DN" teria sido uma boa oportunidade para fazer essa discussão, mas acabou sobretudo numa troca de acusações. Perdeu-se uma oportunidade?

Essa polémica perdeu-se também no calor da batalha política e eleitoral, o que não deixa de ser natural, porque respeitava ao cruzamento do jornalismo com a vida política. Em minha opinião, não estava em causa qualquer violação indevida de correspondência. Os jornalistas não se podem arrogar o direito de a sua correspondência ser sagrada e não ser violada, desde que haja interesse público, como era o caso no episódio em apreço. Dezenas, milhares de bons trabalhos jornalísticos foram, e bem, divulgados com base em correspondência trocada entre políticos, empresários ou agentes judiciais. Ora se há correspondência entre jornalistas com óbvio interesse público e reveladora de um episódio político importante, porque diabo é que essa correspondência deve ser inviolável? Os jornalistas não são excepção à regra.

A protecção de fontes não é excepção?

A questão das fontes, neste caso, não é a substância, mas sim a circunstância. O que está aqui em causa é um episódio claro, e até agora não desmentido, de uma relação de cumplicidade discutível entre um órgão de soberania e um órgão de comunicação social, para pôr em prática uma manobra política visando um outro órgão de soberania. A partir daí, a questão das fontes é completamente secundária. Não vale a pena tentar transformar uma manobra política num caso de deontologia ou de violação de correspondência privada.

Têm surgido na imprensa acusações e insinuações de que o patrão da Controlinveste, Joaquim Oliveira, tem sido um dos empresários de media beneficiados pelo governo, através do BCP. Como assiste a isso?

A concorrência entre grupos de comunicação social gera uma compreensível sucessão de contra-informação a todos os níveis. O que posso dizer, e que é público, é que o presidente da Controlinveste divulgou um comunicado a esclarecer as suas relações com o BCP, nomeadamente no que respeita à renegociação da dívida que tinha sido efectuada antes de a actual administração lá estar. Isso salvaguarda qualquer conclusão menos lícita dessas notícias. Por outro lado, e não lho digo por trabalhar aqui ou por ter uma excelente opinião sobre a pessoa em questão, Joaquim Oliveira é um empresário de comunicação social empenhado naquilo que está a fazer na Controlinveste. Tem uma ambição, que é ter um grupo de comunicação social sólido e independente politicamente. Não há rigorosamente nada que eu conheça, dentro daquilo que é a minha actividade e a actividade dos responsáveis editoriais do grupo, que permita qualquer conclusão em sentido contrário.

Como está a assistir à discussão sobre as fronteiras do segredo de justiça e a sua sucessiva violação, com documentos supostamente secretos a alimentarem as páginas dos jornais?

Por mais subjectiva que seja a noção de interesse público - e independentemente da regulação sobre o segredo de justiça e os interesses que devem ser preservados pelos agentes judiciários -, quando um jornalista é confrontado com uma situação em que seja óbvio que o interesse público manda violar a lei, o jornalista deve fazê-lo. Em situações-limite, o bom senso dos responsáveis editoriais sabe discernir as decisões a tomar.

Mas acha normal que sejam sucessivamente publicados nos jornais conteú- dos de escutas em processos que ainda não foram sequer julgados?

Depende do conteúdo das escutas. Se o conteúdo não tiver qualquer relevância pública e estiver relacionado apenas com questões da vida privada de figuras públicas, e a sua revelação se limita a satisfazer o voyeurismo da opinião pública, sou absolutamente contra. Agora se chega ao conhecimento de um responsável editorial o conteúdo de uma escuta que é de óbvio interesse público, é dever desse responsável proceder à divulgação, mesmo que com isso viole a lei.

É o que se passa com as publicações de escutas no processo Face Oculta?

Independentemente das polémicas, e com todos os defeitos que a justiça tem mostrado ao longo dos tempos, o balanço que faço às forças de investigação é positivo. Há 20 anos todos tínhamos conhecimento de que estas coisas de criminalidade organizada iam acontecendo, com maior ou menor grau, mas não vinham a público e as pessoas iam assobiando para o ar. Não quer dizer que estejamos próximos da perfeição, e é claro que o aparelho da justiça tem lacunas e defeitos, como têm outros aparelhos, aos mais diferentes níveis de exercício do poder. Mas parece-me que existe agora uma independência que tem sido evidente em alguns processos que esperemos que cheguem a bom porto.

Mas depois há casos como o Freeport, que se arrasta na justiça, nos jornais...

... e nascem, hibernam, ressuscitam e levantam, claro, suspeitas fundamentadas de que há uma agenda política da parte de alguns protagonistas do exercício do poder judicial.

Tem essa suspeita?

Tenho pelo menos dúvidas. Não só no caso Freeport como noutros. Parece-me que claramente há coincidências que legitimam essas dúvidas.

E a publicação dessas histórias é jornalismo de investigação ou são coisas postas nos jornais com interesses escondidos?

Uma boa parte dos meios de comunicação, independentemente de procurarem exercer o seu dever de escrutínio e direito de divulgação de matérias de interesse público, têm em muitas circunstâncias funcionado apenas como receptáculo, isentos de crítica, de informação que lhes chega. E porquê? Porque no cenário competitivo em que vivemos hoje em dia, e com as empresas com as dificuldades que se conhecem, às vezes não há os cuidados suficientes de confirmar informação junto de fontes independentes. E há sobretudo a preocupação de chegar antes da concorrência. E quem está do lado do funcionamento da justiça, a todos os níveis, já percebeu que existe essa receptividade excessiva e muitas vezes acrítica do lado da comunicação social. É isso que me parece urgente corrigir, instituindo filtros suplementares e espírito crítico acrescido relativamente à informação que chega aos jornais e que não é, como se compreende, completamente desinteressada.

Falemos de política. Para onde caminha este Portugal em que vivemos?

Não gosto muito de fazer profecias. A análise política tem de ser fundamentada em factos, naquilo que se conhece. As previsões normalmente falham. Impressiona-me a quantidade de vezes que as previsões económicas são corrigidas. Acho que uma boa parte dos nossos economistas ainda não entendeu que a sua área de actividade não é uma ciência exacta, que está extremamente dependente do comportamento social, que é dos comportamentos mais imprevisíveis que há. Dito isto, e não sendo eu propriamente um pateta alegre, acho que apesar de tudo Portugal tem potencial suficiente para ser um país que consolide a sua posição no grupo de países mais de-senvolvidos da Europa, onde já está. Os portugueses estão mais exigentes, o que é normal, e isso exige uma governação mais qualificada a todos os níveis, nomeadamente a nível político. E acho que Portugal tem vindo a pagar, sobretudo nos últimos anos, o facto de as pessoas de maior talento e mais qualificadas não sentirem grande apetência pela vida política. Há que criar mecanismos para as pessoas mais qualificadas virem para a política. A média claramente baixou.

Quando o cidadão comum ouve o governo dizer que estamos a sair da crise, depois sabe-se que o défice aumenta, Constâncio diz que o aumento de impostos é inevitável e o primeiro-ministro garante que não vai aumentar impostos... Isto não é uma espécie de retrato de um país bipolar?

Portugal é um pouco bipolar, e não só ao nível das elites. Recordo que, por exemplo, em 30 de Setembro de 1998, um milhão de pessoas cantaram o hino nacional na Expo 98 convencidas de que Portugal estava definitivamente no pelotão da frente dos países mais desenvolvidos do mundo. Obviamente era uma ilusão de óptica, como se percebeu poucos anos depois. Ou seja, gastamos de mais quando temos a ilusão de que estamos a crescer e depois, quando somos confrontados com situações mais desagradáveis, em vez de optarmos por uma postura de combate, de ir à luta, refugiamo-nos numa atitude de lamento generalizado, autocrítica e pouca consideração por nós próprios. Falando de economia... Diria que a economia é uma coisa demasiado séria para ficar apenas nas mãos dos economistas. O fundamental é que as grandes linhas económicas estejam submetidas a uma liderança política esclarecida. Porque só uma liderança política esclarecida é capaz de ver um pouco mais além que os economistas nas suas contas de somar e de diminuir.

E Portugal tem hoje uma liderança política esclarecida?

É óbvio que neste momento vivemos uma fase de alguma perplexidade e desânimo na opinião pública. E é compreensível e humano, porque com as dificuldades económicas o ânimo baixa na casa das pessoas. O país tem as dificuldades que se conhecem e a liderança política está fragilizada, apesar de ter ganho recentemente eleições. Tem havido uma série de episódios menos agradáveis que têm fragilizado a própria figura do primeiro-ministro, apesar do seu espírito combativo e da sua determinação, e tudo isso tem reflexos no estado de espírito dos portugueses. Mas continuo convencido de que se trata de uma fase de transição e de que, a prazo, Portugal é não só um país viável como um país que vale a pena. Não acho que estejamos condenados ao inferno. Não sou um optimista do tipo pateta alegre, mas acho que temos recursos e razões suficientes para acreditar que Portugal tem futuro.

Acha que este governo minoritário vai chegar ao fim da legislatura?

É um pouco arriscado prever se o governo chegará apenas a metade do mandato, àquele intervalo de seis meses em que pode haver eleições, ou se resistirá os quatro anos. Vai depender de vários factores. Em primeiro lugar, a própria capacidade que o governo for mostrando para resolver alguns dos principais problemas do país. Se conseguir transmitir uma imagem de eficiência, mesmo sendo um governo minoritário, dificilmente será derrubado com lucros para a oposição. Em segundo lugar, depende do que for o futuro da liderança do PSD e, em terceiro lugar, da evolução da situação económica do país.

E que expectativas tem em relação à sucessão na presidência do PSD?

Eu acho que neste momento há já um candidato não assumido à liderança do PSD, além de Passos Coelho ou Marcelo Rebelo de Sousa. Falo de José Pedro Aguiar-Branco. Pela forma como tem exercido a liderança do grupo parlamentar, o protagonismo que tem ganho nessas funções, o tipo de declarações que tem feito sobre o futuro do PSD e do país, pronunciam que, se Marcelo Rebelo de Sousa continuar nesta indefinição, Aguiar- Branco poderá avançar.

Com tantos anos de jornalismo na área política, nunca teve a tentação de entrar na vida política activa? Nunca foi sondado?

Sondado nunca fui. Mas obviamente que a tentação me passou pela cabeça. Havia um cargo que já não existe e que confesso que teria gostado muito de exercer, mas exigia um tipo de preparação prévia que eu não tive: gostava de ter sido governador de Macau. Não era por ser um cargo bem pago. É porque tenho um grande fascínio pelo Oriente e deve ter sido extremamente interessante o exercício daquelas funções e a relação com a República Popular da China. Infelizmente para mim e para as minhas ambições, o cargo foi extinto.

E saudades da prática jornalística, não tem?

Tenho algumas saudades, naturalmente. Saudades da adrenalina das noites do "DN" e ainda hoje em dia, quando por qualquer motivo chega ao meu conhecimento uma informação que acho que pode ser de interesse para o "DN", não resisto à tentação de pegar no telefone, ver quem está de serviço e passar a informação.

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