O ex-militante comunista Domingos Lopes acredita que o PCP está a perder a sua memória e critica o que considera ser um protagonismo excessivo do secretário-geral, Jerónimo de Sousa, que compara a um “relações-públicas” do partido.
Cerca de dois meses depois de ter anunciado a saída do PCP, onde militou durante 40 anos, Domingos Lopes afirma que o partido mudou e que está em causa a sua identidade e a sua natureza.
“Aquilo que é o partido e a sua natureza não pode viver sem a memória. A memória é o elemento essencial que transmite, de geração em geração, aquilo que é uma identidade constantemente renovada”, afirmou, em entrevista à agência Lusa.
Olhando para a direcção do partido, Domingos Lopes diz que não encontra ali uma continuidade: “O que eu vejo no partido não é a continuação da memória renovada, mas o rompimento com aquilo que era a tradição de forjar quadros e da passagem do testemunho do partido às diferentes gerações”.
“Tenho no Parlamento quatro, cinco, seis, sete, oito caras novas, e está tudo resolvido. Isto não chega. É bom que o partido se rejuvenesça, mas o rejuvenescimento em si, por si, e sem nada a ligar esta forma de fazer a política, não tem as potencialidades e o lado positivo que querem fazer crer”, sustentou.
Na opinião do antigo dirigente comunista, “grande percentagem” dos quadros que foram promovidos a cargos de chefia e de direcção “afirmaram-se na luta interna” e não são “quadros de massas”.
Na altura destes conflitos internos, a JCP foi “utilizada como linha avançada naquilo que chamavam a desnaturação do partido” e, agora, “está a receber os prémios disso”.
Sobre o secretário-geral, eleito há cinco anos, Domingos Lopes compara-o a um “relações públicas” do partido, que “opina sobre os mais variados temas”.
Num partido “que privilegia o colectivo sobre o individual”, o antigo militante condena esta “contradição enorme”, afirmando que “deixou de existir um conjunto de dirigentes que opinavam”.
“Do ponto de vista do partido, a figura que aparece sempre é a do Jerónimo. O PCP é o Jerónimo, o Jerónimo é o PCP, sem que isso corresponda a uma figura como a de Álvaro Cunhal. Não tem a empatia, o prestígio, a carga histórica e a capacidade. Há atrás os que fazem a política do PCP e à frente aparece o Jerónimo a dizer o que é que os que estão atrás decidiram”, considera.
Domingos Lopes afirma que o actual modelo está esgotado e que prova disso é o resultado das eleições autárquicas, em que o PCP perdeu quatro câmaras, nomeadamente para o PS, partido que “estava no governo, com aquela escandaleira toda e a política miserável de Sócrates”.
Nas eleições, o PCP “não cresceu, teve mais não sei quantos poucos votos, cresceu o Bloco”, mas na análise aos resultados eleitorais “descobrem virtudes e avanços extraordinários“ e “no meio de um texto de cento e tal linhas, aparece uma referência de que foi menos positivo”, o que para o ex-militante, “não é sério”.
Domingos Lopes considera que este é um também um exemplo do que diz ser o afastamento entre direcção e militantes do partido, que diz terem perdido a iniciativa política.
“Se eu levo sempre uma orientação à base, habituo quem está na base a receber e não trazer”, perdendo-se “esta dialéctica” para se transformar num “certo tipo de organização” onde apenas existe “uma transmissão exclusivamente das opiniões da direcção para os militantes”.
Domingos Lopes sustenta que o PCP “devia ser a casa de todos os comunistas”, mas acredita que “há-de haver um momento em Portugal em que os comunistas tenham uma casa própria”.
A Lusa solicitou igualmente uma entrevista ao secretário-geral do partido e a outros dirigentes comunistas, mas tal foi recusado.




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