Exclusivo i Fernando Pessoa: "Que philosophos hoje?"

por Pablo Javier Pérez López, Publicado em 26 de Novembro de 2009   
Leia ou imprima ao lado mais um inédito de Pessoa: "Tudo a crear"
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O texto "Tudo a crear..." poderia ser considerado um fragmento do material preparatório do "Ultimatum", o manifesto que Fernando Pessoa atribuiu ao heterónimo Álvaro de Campos e publicou no número único de "Portugal Futurista" (1917). Esta hipótese baseia-se em quatro factos: 1. as correspondências, por vezes literais, entre esse texto e o "Ultimatum"; 2. o tom de violência que os caracteriza; 3. a crítica de tipo acusatório que os une; e 4. o ataque de autores que Pessoa elogia noutros lugares (embora em "Tudo a crear..." figurem nomes portugueses que no "Ultimatum" de Campos faltam).

Destaco as correspondências. Primeiro, no fragmento, Henri Bergson e Rudolf Eucken são descritos como "hospitaes para religiosos incuráveis"; no "Ultimatum" lê--se: "Passae á esquerda do meu Desdem virado á direita, creadores de 'systemas philosophicos', Boutroux, Bergsons, Euckens, hospitaes para religiosos incuraveis, pragmatistas do jornalismo metaphysico, lazzaroni da construcção meditada!" (in "Sensacionismo e Outros Ismos", 2009: 255). Segundo, no inédito existe um acrescento a lápis, "o resto é ter morrido Fouillée", que também evoca uma passagem do "Ultimatum": "Onde estão os antigos, as fôrças, os homens, os guias, os guardas?/Vão aos cemiterios, que hoje são só nomes nas lapides!/Agora a philosophia é o ter morrido Fouillée!/Agora a arte é o ter ficado Rodin!" (in "Sensacionismo e Outros Ismos", 2009: 251). Existe um diagnóstico de crise e uma crítica da cultura europeia, que sugerem a necessidade de mudança, de intervenção cirúrgica", para citar Campos.

Comum aos dois textos é uma atmosfera raivosa, um certo tom messiânico, escandaloso, revolucionário. Trata-se de derrubar os ídolos culturais do momento. A linguagem é agressiva e o procedimento é o mesmo: citar o nome de um expoente ou mandarim da Europa para depois o fustigar com uma frase lapidária.

Em "Tudo a crear..." a literatura é a eleita da cidade das artes; ela tem um papel preponderante na transformação dos valores civilizacionais. Só a literatura parece impulsionar a grande transformação que está no fundo de todos os "ismos" pessoanos, cujo lema poderia ser um: "Sentir é crear." Num mundo em que tudo está por criar de novo, a literatura, máxima criação do espírito, surge como a "copia silenciosa das cousas que não existem".

Pablo Javier Pérez López, professor universitário


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