Entrevista

Jupp Heynckes. "Vigo foi um desastre! Que grande decepção!" - vídeo

por FIlipe Duarte Santos, Publicado em 26 de Novembro de 2009   
Dez anos da derrota 7-0 do Benfica. Heynckes solta uma gargalhada e, claro, fica vermelho que nem um semáforo
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Aquela cara não se esquece. Jupp Heynckes corava com facilidade, era assim quando algo não lhe corria bem no Benfica, é assim quando tudo lhe é perfeito agora, no Bayer Leverkusen. O i encontrou-o na conferência de imprensa que antecedeu o jogo com o Bayern Munique, de sábado passado, e percebeu que agora o sangue só lhe sobe à cabeça quando troca piadas com os jornalistas. É a vida confortável de quem é líder do campeonato alemão e sabe que uma boa relação é tudo - por isso puxa duas cadeiras e convida-nos a sentar, quando lhe pedimos dois minutos em exclusivo, sem sequer suspeitar do que está em causa.

Encontramo-lo muito feliz. Tem boa relação com a imprensa?
É verdade. Mas o futebol mudou muito, isto agora é um negócio, há toda a questão da publicidade, do merchandising, da relação com os media... aqui as coisas já funcionam quase como em Espanha, agora há esta preocupação em todo o lado.

"O futebol é um negócio." Um miúdo hoje marca um golo e vale logo uns 20 milhões de euros. Você marcou mais de 250 golos na carreira e nunca jogou fora da Alemanha...
Agora tudo é diferente, joguei há 35 anos. Mudou tudo, até na sociedade, seja aqui, em Espanha, Portugal. As novas gerações aparecem de forma diferente ainda que aqui se note que os jovens são concentrados, trabalham com seriedade.

"Seriedade" é uma boa palavra para recordar um certo Benfica onde esteve com Vale e Azevedo.
Foi uma altura muito complicada, quando lá cheguei a equipa não era muito competitiva. Mesmo assim lembro-me que no primeiro ano [1999/00] fizemos mais quatro pontos do que na época anterior! Mesmo assim não foi suficiente porque em primeiro lugar ficou o Sporting e em segundo o FC Porto.

É o Benfica, isso não pode ser.
É como em Espanha, a rivalidade Real Madrid-Barcelona. Mas aquele Benfica não era muito competitivo, além disso, internamente o clube vivia uma fase complicada. Mesmo assim gostei do trabalho com os jogadores, sempre correctos comigo. Claro que num clube com a tradição do Benfica estamos obrigados a ganhar, até devido à imagem na Europa.

Quarta-feira, 25 de Novembro. Sabe que passam dez anos do 7-0 de Vigo?
[Gargalhada. Fica vermelho que nem um semáforo.] Foi um desastre! Que grande decepção! Mas sabe? Foi a diferença entre a Liga espanhola e a portuguesa. O Celta tinha uma grande equipa nessa altura e aquele resultado acabou por ser decisivo no futuro da equipa, porque os jogadores perderam muita confiança... Um desastre, foi pena.

Foi a sua pior experiência num balneário?
Sim, não só pelos jogadores mas também por causa da reacção dos adeptos e do impacto no clube... mas na vida temos de ultrapassar as decepções ou as derrotas. Na altura não conseguimos.

Nessa época viu um pouco de tudo, desde aquela estranha venda de Ovchinnikov até à dispensa de João Vieira Pinto. Como foi isso?
Foram decisões do presidente, daquele... Azevedo, nada mais. Creio que a venda do Ovchinnikov foi uma questão desportiva, no caso do João Pinto foi decisão do presidente - ganhava muito dinheiro e ele pensou que não se ajustava ao rendimento.

Se o Benfica fosse o Bayer Leverkusen de 1999-2002, seria a mesma coisa que dispensar o Michael Ballack. Concorda?
Sim, claro, mas tem de lhe perguntar isso a ele [Vale e Azevedo], foi uma decisão sua.

Demitiu-se depois de uma vitória (2-1) frente ao Estrela, o que até é raro. Deixou de acreditar naquele Benfica?
O problema foi que não me pagaram! Por isso fui-me embora! Não teve nada a ver com a questão desportiva. Não recebi o meu dinheiro, passei muito tempo sem receber e um dia acabou-se a paciência.


O Benfica agora está diferente. A equipa tem um dos melhores ataques da Europa.
Sim? Não tenho seguido, tenho tanto trabalho por aqui...

Maniche, do Colónia, disse-nos que se reencontraram.
Falei com ele quando nos defrontámos, veio ter comigo ao banco e abraçámo-nos. No Benfica, pedi ao presidente para lhe dar um contrato melhor porque não ganhava quase nada. Dei-lhe confiança, vi que ele tinha qualidade, foi incompreensível como um jogador daqueles acabou por ir para o FC Porto por tão pouco dinheiro.

No seu Benfica o guarda-redes era Enke.
A sua morte foi uma notícia tão triste para mim. Conheci-o como pessoa e desportista, levei-o para o Benfica, nos últimos tempos também estivemos próximos. Viram a reacção das pessoas aqui na Alemanha? Nunca tínhamos passado por uma situação destas, nunca tínhamos vivido um sentimento assim. Para mim, digo-lhe, foi mesmo complicado ir à despedida do Enke a Hanôver. Ele estava doente, a depressão é uma doença tremenda. Foi sempre fantástico comigo, um miúdo amável. Rever as imagens dele com a filha doente ao colo, andando no estádio e a sorrir, foi impressionante. É essa imagem que me vem à cabeça quando me lembro dele.

Convenceu-o a ir para o Benfica quando não é normal um alemão jogar em Portugal.
Ele tinha confiança em mim. Treinei muitos anos em Mönchengladbach, depois no Bayern, em Espanha... ele conhecia o meu trabalho e sabia que teria o meu apoio. No Benfica começou a falar português muito rapidamente, integrou-se muito bem com os adeptos, chegou a capitão e adaptou-se logo a Lisboa...

Como é estar de volta ao topo aqui em Leverkusen?
Estou num clube com uma estrutura muito boa, numa equipa jovem mas cheia de talento e imaginação. Estamos na frente do campeonato, trabalhámos muito para estar aqui e, claro, temos bons jogadores muito bons.

O objectivo é ganhar o campeonato já esta época?
Não, o objectivo é chegar à Liga Europa ou à Champions. Foi isso que falámos no início da temporada. Na Alemanha há sempre seis ou sete equipas com condições para ganhar, por isso temos de esperar e ver o que vai acontecer, até porque ainda só passaram doze jornadas [agora são treze, após o 1-1 de sábado com o Bayern Munique].

“Como sofreram os jogadores que eram pais...”

Paulo Madeira naufragou nesses 7-0 em Vigo mas foi surpreendentemente eleito o melhor em campo do Benfica pelos quatro desportivos espanhóis

 

Os anos passam mas Paulo Madeira não esquece Vigo. O central português tem o discurso escorreito quando o i lhe pergunta pelos 7-0 do Celta Vigo. “Ao intervalo, já havia 4-0 e a nossa vontade era sair dali, que o jogo acabasse naquele instante”, garante. “O pior nem foi a goleada, mas sim a viagem de volta para Lisboa, o treino do dia seguinte no Estádio da Luz, os insultos dos adeptos… Como sofreram os jogadores que eram pais naquela altura. Os filhos deles foram gozados na escola durante semanas. Isso é que foi muito difícil”, descreve Paulo Madeira, eleito pelos quatro desportivos espanhóis de então (Marca e As de Madrid mais Sport e El Mundo Deportivo de Barcelona) o melhor em campo do Benfica, com nota 1, enquanto os restantes companheiros não saíram do 0.

 

“Isso é uma novidade que me está a dar. Pela primeira vez em dez anos, sei disso. Nem sei porque é que eles me pontuaram dessa forma. Todos nós jogámos mal, sem excepção. Aliás, o 7-0 reflecte isso mesmo mas há um detalhe que precisa de ser relembrado: o Celta foi sete vezes à nossa baliza e marcou sempre. Não foi daqueles jogos em que eles criam 20 situações de golo e marcam sete. Não. Foi sete em sete. Eficácia pura. Compreendo a irritação dos adeptos mas eles deviam ser mais comedidos, porque insultar por insultar, insultar a mãe deste e o pai daquele demonstra uma falta de respeito enorme, mas é a nossa cultura e tivemos de aguentar firme para seguir adiante.

No jogo seguinte [2-0 com o Campomaiorense, com golos de Paulo Madeira aos 8’ e Maniche aos 70’], fomos assobiados. Na nossa casa. Foram tempos complicados.”



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