Primeiro plano

Uma decisão em frente à televisão

por Paulo Tunhas, Publicado em 25 de Novembro de 2009   
A situação pode ser só "inusitada", e não "descontrolada", mas que caminha para o descontrolo, lá isso caminha
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Acontece, suponho, a muita gente. Em todo o caso, a mim acontece-me. O que não quer dizer que ande por aí, supimpa e pimpão, a desejar a conflagração universal. Longe disso: quero que este mundo continue vivinho e comigo lá dentro, se possível. Mas, de tempos a tempos, prometo-me aquilo que o czar Ivan solenemente declara a meio do filme de Eisenstein: "Doravante serei terrível." A última vez, em frente à televisão, foi quando um homem habitualmente ponderado, Francisco Assis, voltou ao tema das "tentativas de assassinato" do carácter do primeiro-ministro. Não sei - a sério que não sei - como se pode continuar a ter paciência para estas declarações e a supor-lhes pensamento vivo por detrás das palavras, puro jargão da seita. Mas ponto final: basta desligar o som, uma maneira fácil de ser terrível. Não sendo a fortitude o meu forte, é improvável que a decisão dure muito. Mas, enquanto durar, é saudável.

É que, se repararem, a vida política em Portugal aproxima-se cada dia mais daquilo que um filósofo pouco favorável a optimismos sobre a espécie humana chamava, há muito, "estado de natureza": um estado de guerra de todos contra todos, no qual cada homem é um lobo para todo o outro homem. No contexto dos doces humores democráticos, é claro, o que faz uma certa diferença, mas não muda a gravidade da situação.

Vejamos. José Sócrates é alvo de uma vasta e legítima suspeita. Ninguém confia excessivamente nele, para falar delicadamente. A corrupção grassa nas adjacências do Estado. Os órgãos de comunicação social são abarbatados pelo poder, que, de resto, anuncia ser vítima de "espionagem política". A justiça, nas pessoas de Noronha do Nascimento e Pinto Monteiro, confunde-se e confunde os cidadãos. Além disso, faz conjecturar subserviências e arbitrariedades sortidas, e, de caminho, vai perdendo o respeito que muito remotamente ainda inspirava. Os partidos estão no estado em que estão: o PSD, como uma tribo da Amazónia, vive em guerra endémica e delicia-se em introspecções autofágicas; e o PS está inteiramente dependente da sobrevivência de um primeiro-ministro ao qual indignamente se rendeu - e sobre o PS não é preciso dizer mais nada. A situação pode ser só "inusitada", e não "descontrolada", para adoptar a subtil distinção de Teixeira dos Santos, mas que caminha para o descontrolo, lá isso caminha. Mais grave: o desemprego aumenta a olhos vistos e, é claro, as finanças estão como estão. Não são ruas, são avenidas de amargura.

Nesta situação, censurar-se-á a um privado cidadão que procure pensar noutras coisas, sobretudo se elas não acrescentam mais atributos à confusão geral? Não, de maneira nenhuma. Cada um por si e Deus contra todos, como diz uma amiga minha. Em demótico: vão-se lixar!

Professor do Departamento de

Filosofia da Univerdidade de Porto

Escreve à quarta-feira


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