Internacional

Fantasma do Iraque volta para assombrar Tony Blair

Publicado em 25 de Novembro de 2009   
Por 60 segundos calaram-se as vozes na sala de conferências Queen Elizabeth II. No silêncio, os membros da comissão de inquérito à participação britânica na invasão do Iraque lembraram os 179 militares mortos no conflito. Do outro lado da parede, nas ruas de Londres, os activistas da organização "Stop The War" invocavam as mortes para exigir uma resposta sobre a entrada do Reino Unido no Iraque: porquê?
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Nesta questão cabem todas as dúvidas que o "Inquérito Chilcot" - uma comissão chefiada por cinco personalidades britânicas para investigar o que se passou na guerra do Iraque - pretende esclarecer. A invasão do país de Saddam Hussein foi legal? Tony Blair acreditava, tal como os norte-americanos, que o ditador iraquiano escondia armas de destruição maciça? O primeiro-ministro mentiu ao Parlamento quando garantiu em 2002, oito meses antes da invasão, que o Reino Unido não se preparava para a guerra?

No centro de todas as dúvidas britânicas está o papel político do então primeiro-ministro Tony Blair em todo o processo que conduziu à guerra. É por isso que a comparência de Blair perante a comissão, em Janeiro de 2010, promete ser um dos pontos altos dos interrogatórios previstos pelo grupo de trabalho que ontem iniciou funções.

Por agora, a comissão liderada por Sir John Chilcot ouve as testemunhas. Esta fase, que dura até Fevereiro, contou ontem com os depoimentos de Peter Ricketts, chefe dos serviços secretos conjuntos em 2001; do director de política do Ministério da Defesa, Simon Webb; e do antigo director do Departamento do Médio Oriente do Ministério dos Negócios Estrangeiros, William Patey. Só depois, a comissão irá analisar os documentos. As conclusões são esperadas no fim de 2010.

O ataque às Torres Gémeas em Nova Iorque foi o ponto de viragem na estratégia britânica. "Se o 11 de Setembro não tivesse acontecido, teríamos continuado a acreditar que o caminho correcto passava pelas sanções ao Iraque e continuaríamos a insistir para que os inspectores verificassem as armas", disse Ricketts: as preocupações com o Iraque eram anteriores ao 11 de Setembro.

No início de 2001, a Grã-Bretanha e os Estados Unidos concluíram que as suas estratégias para persuadir Saddam a aceitar a presença de inspectores internacionais no Iraque falharam, disse Ricketts. Foi nesse momento que algumas vozes em Washington defenderam o derrube do regime. Prova disso, apontou Ricketts, foi um artigo de Condoleezza Rice em que a então Conselheira para a Segurança Nacional de Bush avisava que "nada iria mudar" no Iraque até que Saddam saísse do poder.

Apesar de ser o quinto inquérito à guerra, o "Chilcot Inquiry" pretende escrutinar como os britânicos conduziram a guerra para daí "tirar lições" para o futuros. Mas desta comissão não saem condenações judiciais, avisou Chilcot.

O problema, apontam os cépticos, é que um balanço sério da guerra não interessa aos Trabalhistas nem aos Conservadores: os primeiros assinaram a ordem de invasão e os segundos confirmaram--na no parlamento. Prova da falta de vontade política para extrair respostas concretas da investigação, é, aponta um juiz ao "The Guardian", a inexistência de juízes ou advogados no painel. "Alguns dos debates sobre a legalidade da guerra são muito sofisticados", o que torna a comissão incapaz de cumprir os seus próprios objectivos: "Vai ser muito difícil lidar com alguém como Blair sem um painel de especialistas no cruzamento de dados."


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