Entrevista
Marco António Costa: "Manuela Ferreira Leite não exerce o lugar"
Publicado em 25 de Novembro de 2009
Líder da distrital do Porto diz que Ferreira Leite é vítima de uma "comissão política moribunda"
Marco António Costa, líder da distrital do Porto do PSD, a maior do país, quer eleições para a liderança do partido com urgência. Não poupa críticas à direcção política que gira em torno de Manuela Ferreira Leite.
Manifestou-se favorável à marcação urgente de eleições para a liderança do PSD. Porquê essa urgência?
Os pressupostos que estiveram na base da decisão do último conselho nacional de manutenção dos actuais órgãos do partido alteraram-se. Em primeiro lugar, era o pressuposto de que, durante o período de debate do programa do governo e do Orçamento do Estado, a direcção do partido mantivesse uma unidade estratégica com o grupo parlamentar com vista a garantir uma única voz nesses debates. Em segundo, que as principais figuras do PSD não trouxessem para a praça pública a questão da sucessão. Aconteceu o contrário. Após esse conselho nacional vários dirigentes nacionais manifestaram oposições divergentes relativamente a aspectos centrais do debate político. A tal unidade de voz do PSD está completamente posta em causa.
O que mudou no espaço de pouco mais de um mês?
Na semana a seguir ao conselho nacional, vários dirigentes, de uma forma concertada, tentaram lançar para a opinião pública protocandidatos à presidência do PSD. Procuraram marcar a agenda política e condicionar o futuro do PSD. Apenas pretendo que o presidente da mesa do congresso pondere estes factos, que alteram objectivamente a decisão de não serem marcadas eleições directas no partido. Cada dia que passa em que este ambiente se adensa é um dia a menos na credibilidade do PSD. É urgente inverter este processo.
Qual era o objectivo da apresentação desses protocandidatos?
Há pessoas no PSD que ainda não perderam o vício de acharem que pertencem a uma certa aristocracia política e que é essa aristocracia que deve marcar a vida interna do partido. Isso acabou. O PSD tem directas, um militante um voto. E essas pessoas estão com dificuldade de adaptação à realidade. Tenho a obrigação política, como presidente da maior distrital do país, de não permitir que se invertam as regras do jogo, ou seja, quando as eleições estiverem marcadas, que se apresente o maior número de candidatos e que os militantes possam livremente participar nessa escolha. Espero bem que não aconteça outra vez o lamentável episódio das quotas, como instrumento condicionador da vida interna do partido. Devem ser umas eleições sob a égide da liberdade. Começam a adensar--se alguns fumos quanto ao comportamento dos serviços centrais do partido no que concerne, por exemplo, ao processo da distrital de Lisboa, já foi denunciado por Carlos Carreiras.
Em que se baseia para classificar esta liderança do PSD como moribunda?
Não falo da liderança. Respeito muito Manuela Ferreira Leite. Falo da direcção política. O que eu digo é que Manuela Ferreira Leite ocupa a função, mas não exerce o lugar. Isto decorre do facto de a direcção política do partido estar profundamente dividida. Basta citar temas como a regionalização, o combate à corrupção ou a abordagem do debate político ao Orçamento. Têm sido públicas as ausências reiteradas de elementos da comissão política, designadamente vice--presidentes, nas reuniões deste órgão. Isto dá uma imagem de uma comissão política moribunda. Mas atenção que faço a distinção entre Manuela Ferreira Leite e a comissão política. Ela não merece o que lhe está a ser feito, por algumas pessoas que a empurraram para que fosse líder do partido e que neste momento já estão preocupadas em arranjar um sucessor, não cumprindo o compromisso assumido no conselho nacional. Há um conjunto de personalidades que não estão interessadas em vencer o PS e ter um projecto político de mudança.
Quem são essas personalidades?
É a tal aristocracia... Não gosto de fulanizar as questões. Antigamente utilizava-se a expressão barões. Temos uma aristocracia decadente que não perde a mania e a tentação de querer condicionar a vida do PSD. E nesta lógica de pensamento sinto-me o cidadão mais comum...
O tal ruído de fundo de que fala tornou o calendário político, com o debate do Orçamento do Estado no horizonte, irrelevante para a vida interna do PSD?
O PSD tinha de manter uma postura de responsabilidade. Disse na altura que não pediria a saída imediata desta liderança e cumpri. Não vejo é os outros cumprirem a parte deles. Principalmente aqueles que são os maiores interessados porque estão instalados nos órgãos do partido. É a tal mudança de pressupostos que leva a uma nova exigência, ou seja, eleições rapidamente.
Quando deve ocorrer essa clarificação?
O prazo estatutário. O presidente do conselho nacional, Rui Machete, que já foi líder e é uma figura incontornável na história do partido, deverá assumir as responsabilidades decorrentes do cargo que ocupa. O PSD tem de voltar a ser um partido de implantação nacional. Não pode estar acantonado a meia dúzia de quilómetros em redor da sede nacional.
Há uma candidatura no terreno, de Pedro Passos Coelho. Vai apoiá-lo?
Ele ainda não anunciou candidatura nenhuma. É público que o apoiei nas últimas eleições, mas os meus compromissos político-pessoais com ele terminaram no dia das últimas directas. Só quando os projectos políticos de cada candidato estiverem claros e consolidados é que poderei avançar com o meu apoio pessoal a um candidato. Pessoal, atenção, que as distritais devem manter-se neutrais, até porque vão trabalhar com o líder que sair das próximas eleições. Mas ainda estamos numa fase muito embrionária do processo, ainda vai correr muita água...
Acredita em vagas de fundo que levem alguém até à liderança do PSD?
Sabe que esta ideia de que a política, em determinados momentos, deve ser uma procissão para levar um andor às costas não é credível. As vagas de fundo foram ensaiadas, mas ficaram muito pequenas, irrisórias. O PSD ao não entrar nestas lógicas de vagas de fundo também dá um sinal de maturidade.
Quem vier a seguir tem um trabalho muito difícil...
O próximo líder do PSD tem um desafio tremendo pela frente: reparar os malefícios que a governação do PS tem causado ao país. E para isso tem de olhar para a sua base programática. O PSD tem de se repensar. O que ficou patente nas últimas legislativas é que a sociedade portuguesa não vê o PSD como um partido ideologicamente esclarecido. A apresentação de um programa de revisão constitucional que vise uma mudança do paradigma do Estado é fundamental. Mesmo que este projecto venha a ser rejeitado, ficamos com uma base séria e distintiva dos outros partidos. O PSD sempre foi um partido reformista e é assim que se deve apresentar aos portugueses.
Se o próximo líder do PSD não defender nenhuma das suas propostas , vale a pena continuar no partido?
Acredito que vale sempre a pena lutar dentro. Não vou abandonar o meu partido, não lhe vou virar as costas, nem virar a seta ao contrário. Vou lutar, à minha dimensão, nos locais certos, por aquilo que acho relevante e importante.
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