Violência doméstica
Enfrentar os monstros e acabar com a violência
por Vanda Marques , Publicado em 25 de Novembro de 2009
Estreia hoje o monólogo "Vulcão", que retrata a violência doméstica. A convite do i, uma psicóloga da APAV foi assistir a um ensaio da peça
Batia-lhe, violava-a e não a deixava sair de casa. Mesmo assim, ela continuava a referir-se ao marido como o "meu bruto". Usar o possessivo "meu" parecia acalmar a fúria. Ajudava-a a sobreviver e a pensar que afinal não era assim tão mau. "Era o meu", dizia Valdete.
Estava casada há 13 anos com um homem que dizia que a amava, ao mesmo tempo que a espancava. Ela sentia ódio e também medo de o perder. A escalada de violência chegou ao ponto de o marido raptar o próprio filho e de a fazer andar de trela. Apesar de Valdete não existir, podia ser uma mulher de carne e osso. É a personagem que Custódia Gallego interpreta em "Vulcão", a nova peça do Teatro Dona Maria II, em Lisboa. A obra sobre violência doméstica, escrita por Abel Neves e encenada por João Grosso, é um monólogo que estreia amanhã e nos acorda para uma realidade que atinge muitas mulheres. Custódia está sozinha em palco, mas a presença violenta do marido sente-se nas conversas. A actriz diz que a mensagem da peça é um alerta: "Sabemos que existe este tipo violência, mas não percebemos que é importante estarmos atentos para ajudarmos. Devemos pensar no que podemos fazer para minimizar a dor destas mulheres."
A psicóloga Cátia Rodrigues trabalha há sete anos na Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) e a convite do i foi assistir ao ensaio da peça "Vulcão". "É um alerta importante para quem não conhece esta realidade. Tal como a existência do Dia Internacional da Eliminação da Violência contra a Mulher [que se assinala hoje], uma data em que muita informação chega a estas mulheres. Ficam a saber o que podem fazer para quebrar o ciclo de violência, que organizações pode contactar e como a vão ajudar."
Valdete não chegou a pedir apoio, nem sabia que existia. Vivia numa casa no campo afastada da vila. Raramente saía porque o marido controlava os seus movimentos, um comportamento comum dos agressores. Um simples: "Onde vais?", "Com quem?" ou "A que horas voltas?", pode parecer um gesto carinhoso, mas por vezes é uma forma de controlo. A estratégia vai evoluindo e chega ao extremo de os maridos obrigarem a mulher a apresentar recibos do dinheiro que gastou. "Recordo-me de uma vítima que não trabalhava e o marido só a deixava sair para ir ao médico. Para nos conseguirmos encontrar, tivemos de lhe pagar os bilhetes e combinar uma consulta com a médica de família."
Sobreviventes Não é uma equação fácil. Como é que o amor se transforma em violência? E como diz Valdete: "Como é que ele mudou de homem para monstro?"
"É uma situação que pode acontecer a qualquer pessoa. Há quem tenha uma natureza mais submissa, mas não há regras nem padrões", explica a psicóloga Cátia Rodrigues. Em muitos casos, cria-se uma relação de dependência emocional e depois de lhes destruírem a auto--estima, as vítimas acreditam que não prestam e que nunca vão conseguir fugir.
A violência doméstica é um crime público e qualquer pessoa tem obrigação de o denunciar. Organizações como a APAV, a UMAR ou a Associação de Mulheres Contra a Violência ajudam as vítimas a tomarem as decisões correctas. Os planos de segurança podem incluir medidas simples ou chegar mesmo a planear uma fuga. "Por exemplo, se a maior parte das agressões é na cozinha, não convém ter facas a descoberto", explica a psicóloga. Cátia Rodrigues defende que a solução tem de ser adaptada a cada caso. "Começamos com coisas tão básicas como criar uma conta à parte da conjunta. Damos apoio psicológico, social (arranjar emprego), e jurídico. Ajudamo-las a reencontrar a auto-estima e a capacidade de acreditarem em si mesmas."
Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.
Artigo: Enfrentar os monstros e acabar com a violência
Actividade em ionline