Jornadas do PSD

Presença de Bispo do Porto nas jornadas do PSD divide Igreja

por Tiago Guerreiro da Silva e Agência Lusa, Publicado em 24 de Novembro de 2009   
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O bispo do Porto, D. Manuel Clemente, esteve presente nas jornadas do PSD que hoje terminam em Espinho. O PSD convidou o bispo por que lhe reconehce "independência" e "grande espírito de combate a muitas das chagas sociais que existem actualmente na sociedade", informa o "Jornal de Notícias". D. Manuel Clemente diz que aceitou o convite sem problemas porque sabe manter a distância certa das questões partidárias: "Não sei contingentar a doutrina social da Igreja com partidos."  E diz que pretende apenas "levar a perspectiva da Igreja sobre as mais diversas problemáticas".

Contudo, a presença do bispo nas jornadas do PSD divide a Igreja, diz o "Jornal de Notícias".  Uma fonte do Episcopado, contactada por aquele meio, teme que "estas presenças da Igreja na esfera política possam tornar-se numa moda". "Não acho absolutamente nada normal os bispos serem convidados para actividades partidárias e aceitarem. A Igreja só tem a ganhar com o afastamento da política partidária. Deve manter-se neutral", acrescentou outro bispo contactado pelo "Jornal de Notícias".

Já o porta-voz da Conferência Episcopal, o padre Manuel Morujão,não encontra qualquer conflito de interesses. Morujão disse àquele jornal estar "seguro de que se D. Clemente for convidado para outras jornadas semelhantes às do PSD, certamente aceitará e falará sempre em nome da Igreja. Com a mesma liberdade com que poderá aceitar falar em partidos mais distantes da Igreja."

O bispo do Porto defendeu ontem, no decorrer das jornadas, que questões como o casamento entre homossexuais "não podem ser resolvidas rapidamente, exigem reflexão", e considerou que um referendo "é uma das hipóteses" para que esse debate aconteça.

Num discurso no final de um jantar das jornadas parlamentares do PSD, num hotel de Espinho, o bispo do Porto citou partes da última encíclica do Papa Bento XVI, uma das quais sobre o conceito de natureza, que associa o respeito e os deveres para com o "ambiente exterior" ao respeito e aos deveres para com "a humanidade de cada um de nós", a começar pela "fisiologia humana".

A seguir, questionado pelos jornalistas se algumas das suas palavras ganham relevância por estar na agenda política a questão do casamento entre pessoas do mesmo sexo, o bispo do Porto respondeu: "Esta reflexão é oportuna sempre. Em relação ao casamento, a posição da tradição cristã é conhecida, mas não apenas da tradição cristã: é a célula-base da sociedade, em que nós nascemos, em que a vida continua, e que assenta, sempre assentou, na alteridade homem-mulher".

"Isto tem sido o casamento, isto é a base natural da sociedade. Outras coisas são outras coisas e devem ter outro tipo de tratamento", sustentou.

D. Manuel Clemente defendeu, em seguida, que "todas as questões sociais", incluindo esta, "não podem ser resolvidas rapidamente, exigem reflexão, exigem aprofundamento dos factos, exigem argumentação e contra-argumentação para crescermos todos com os assuntos".

Questionado se o alargamento do casamento civil aos homossexuais deve ser sujeito a referendo, o bispo do Porto considerou que essa "é uma das hipóteses".

"É uma das hipóteses previstas na Constituição. portuguesa. Essa ou outra. Não me bato em especial por nenhuma. Agora, bato-me para que seja uma ocasião de reflexão e de aprofundamento do que está em causa. O que está em causa é a própria base da sociedade que sempre existiu e, até ver, continuará a existir a partir da família, da alteridade homem-mulher, da abertura à vida e à educação. Sempre foi assim", acrescentou.

Durante a sua intervenção, a propósito do conceito de natureza, o bispo do Porto considerou que as pessoas respeitam pouco a sua "própria fisiologia humana".

"Pensar um bocadinho não nos faria mal, sobretudo quando a natureza tem afirmações tão consolidadas como acontece, por exemplo, em relação à perpetuação da espécie humana em termos de alteridade masculino-feminino, como sempre aconteceu, independentemente dos contornos sociais e culturais que isso foi tendo", prosseguiu.

"Há aqui uma verdade fisiológica básica - que é mais do que fisiológica, é fisiológica e psicológica, coincide com a pessoa - e que não é assim tão facilmente descartável. Nós não somos produtos do nosso próprio laboratório", concluiu D. Manuel Clemente.

 



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