Visita de Estado
Ahmadinejad. Um conservador islâmico no eixo do carnaval
Publicado em 24 de Novembro de 2009
Lula e Ahmadinejad assinaram acordos comerciais. Os brasileiros protestaram
Meia hora. Foi este o tempo que o presidente do Brasil, Lula da Silva, concedeu ontem ao presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad numa audiência privada em Brasília. Nas ruas, o líder da República Islâmica despertou a fúria dos brasileiros. Cem pessoas manifestaram-se na Esplanada dos Ministérios, na capital brasileira, e entupiram um dos acessos da estrada antes da chegada do presidente do Irão. Pouco antes, uma avioneta cruzava os céus do Rio de Janeiro com uma faixa em que se lia: "Você não é bem-vindo aqui." Do Rio de Janeiro a Brasília, de Florianópolis a Curitiba, o protesto dos brasileiros encheu as ruas.
Mas nem os cartões vermelhos distribuídos pelos manifestantes, nem as perguntas incómodas lançadas nos balões - "O holocausto não existiu? Brasil, que convidado é esse?" - impediram a visita de Mahmoud Ahmadinejad - depois de uma onda de protestos ter forçado o cancelamento da primeira visita agendada para Maio deste ano.
"Não adianta deixar o Irão isolado", insistiu Lula da Silva, antes de se encontrar em privado com Ahmadinejad. O encontro entre os dois presidentes durou o tempo suficiente para Lula da Silva marcar uma posição que a comunidade internacional caracteriza como "jogo duplo": por um lado, Lula pretende impor o Brasil como um actor importante no palco diplomático global; por outro, quer estar ao lado do Irão e dos países do Médio Oriente em nome da paz, mas sem se comprometer demasiado com o programa nuclear de Teerão e sem beliscar as relações bilaterais com Barack Obama. "O encontro é uma via de mão dupla", sugere Bruno Garschagen, cientista político e director de relações institucionais no think-tank Ordem Livre.
Existe o interesse de o Brasil aparecer "aos olhos do mundo como uma voz activa na pacificação do conflito do Médio Oriente", diz Bruno Garschagen. Mas também há o interesse do presidente do Irão, que quer "aproximar-se da América Latina, África e Ásia, regiões que estão fora do eixo Europa-EUA e onde as portas não estão fechadas."
A visita é também uma "moeda de troca": o Brasil aumenta as exportações para o Irão através da assinatura de um protocolo de intenções para estimular as relações comerciais entre os dois países. O Irão, além dos benefícios comerciais, recebe apoio político para legitimar as suas pesquisas nucleares num momento de intensa pressão internacional para travar o seu enriquecimento de urânio.
Lula da Silva já tinha defendido o direito de o Irão desenvolver energia nuclear, desde que para fins pacíficos. "Agora", diz Bruno Garschagen, "o Brasil confirma e dá força pública a esse apoio."
O ambiente nas ruas esteve, durante o dia de ontem, tenso. As frases polémicas de Ahmadinejad sobre a negação do holocausto e a sua intenção de destruir Israel causaram perplexidade num país predominantemente católico. Como se não bastasse, Sérgio Gabrielli, o presidente do gigante estatal do petróleo brasileiro, a Petrobrás, manifestara já a sua intenção de retirar a empresa do Irão.
A viagem de Ahmadinejad constitui a primeira visita de um chefe de Estado iraniano ao Brasil, mas este foi o terceiro encontro com Lula da Silva.
A decisão de Ahmadinejad visitar oficialmente o continente sul-americano não será alheia ao facto de, nos últimos 15 dias, a região ter sido visitada pelo presidente israelita, Shimon Peres, e pelo presidente da Autoridade Nacional Palestiniana, Mahmoud Abbas. "Poucos países têm a honra de, em 15 dias, receber três presidentes. São três países que estão envolvidos em conflito e que têm muita responsabilidade pela paz no Médio Oriente", disse Lula da Silva.
Em jogo está a tentativa de o Brasil conquistar apoios no Médio Oriente para alcançar um lugar como membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Porém, ao querer dialogar com todas as partes, o tiro de Lula pode sair-lhe pela culatra e arrefecer as relações entre os EUA e o Brasil, argumentam vários especialistas em relações internacionais. Isto porque o encontro com o líder do Irão colide com os esforços do Ocidente para controlar o programa nuclear iraniano. Mas essa não é a interpretação de Bruno Garschagen: "O governo de Washington pode não ver com bons olhos o encontro entre Lula e Ahmadinejad, mas Obama sentirá que quanto mais Ahmadinejad aparece publicamente, mais ele se compromete e tenderá a optar pela via pacífica." Além disso, as três visitas dos representantes do Médio Oriente ao Brasil nos últimos 15 dias ilibam o presidente Lula de acusações de apoio ao Irão. "As três visitas levam a que aos olhos do Estado americano o Brasil seja visto, não como um apoiante do Irão, mas como um país que quer estar bem com o mundo", diz Bruno Garschagen. "Lula quer mostrar que o Brasil tem diversidade de relações internacionais", reforça Margarida Vaqueiro Lopes, jornalista portuguesa do "Estadão". O périplo de Ahmadinejad segue hoje na Venezuela, onde irá reunir com o presidente Hugo Chávez - o amigo que sempre apoiou o programa nuclear iraniano.
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