"A 'Guerra das Estrelas' e Shakespeare não estão ao mesmo nível"
por Enrique Pinto-Coelho, Publicado em 23 de Novembro de 2009
Ramin Jahanbegloo é uma das vozes mais respeitadas do exílio iraniano. Esteve em Lisboa e falou ao i - em exclusivo
Tem os olhos grandes e profundos. Fala, como se nada fosse, dos 125 dias que passou numa prisão de máxima segurança em Teerão, acusado de organizar uma revolução que nem sequer tinha começado. Filósofo, escritor e dissidente iraniano, Jahanbegloo vive no Canadá e acaba de receber o Prémio pela Paz, atribuído pela ONG espanhola Associação para as Nações Unidas. Amanhã será um dos oradores nas Conferências Internacionais organizadas pelo Instituto Piaget na Universidade de Viseu.
Em 2006 foi detido e encarcerado. Como foi a experiência?
Na solitária fui interrogado inúmeras vezes. Não tinha acesso a livros e não podia ver a minha família, mas não parei de escrever. Não puderam julgar-me porque as acusações eram fictícias. Disseram que tinha organizado uma "revolução de veludo" e eu nunca tive qualquer actividade política. Foi duro mas também muito interessante, permitiu-me fazer uma crítica ainda mais profunda da violência política.
Foi pioneiro na pesquisa da não-violência. Além de Gandhi e Luther King, que outros exemplos encontrou?
[Nelson] Mandela e o Dalai Lama. Mandela é um líder que admiro e respeito. Também gosto de falar com Dalai Lama e espero voltar a vê-lo. Ofereceu-me diversas dádivas quando saí da prisão e pediu-me para nunca mais lá voltar.
Denuncia uma crise de liderança na Europa. O que pensa dos líderes escolhidos pela União Europeia na semana passada?
São fracos e sem carisma. A geração posterior à II Guerra Mundial era muito mais ética, acreditava numa serie de princípios que animaram a luta contra os autoritarismos e que hoje perderam vigor. Conheci Mário Soares há muitos anos e falámos sobre a Revolução dos Cravos, uma revolução não-violenta. A geração de Soares e Olof Palme contrasta com algumas figuras actuais, como [Silvio] Berlusconi, ou [Nicolas] Sarkozy. Berlusconi representa a palhaçada, a política com ligações turvas. Também há figuras perigosas na América Latina - é o caso de Hugo Chávez, que utiliza a democracia para assaltar o poder.
A Revolução Verde iniciada pelos iranianos em Junho vai continuar ou os inimigos são demasiado fortes?
O descontentamento é grande e não vai parar: nas universidades, nas ruas, com muito sacrifício. É uma revolução das pessoas e não tanto dos líderes, mas precisa de porta-vozes.
Que consequências tem a negação do Holocausto repetida pelo presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinjead?
Não sei qual é o conhecimento que Ahmadinejad tem sobre o Holocausto. Nunca viajou a Auschwitz ou Dachau, talvez acredite que não precisa de saber mais sobre o assunto. Falta uma educação sobre o Holocausto no Médio Oriente. Para evitar que se repita a história, é preciso falar sobre as coisas, exercitar a memória.
Quais são as questões actuais que não podem ser contornadas?
O Holocausto é uma delas, mas há muitos desafios globais. Darfur, a pobreza, a iliteracia, a sida... Também devemos falar do aquecimento global, dos danos ao ambiente que são um reverso escuro dos nossos tempos.
Em Viseu vai falar sobre a cultura pós-Auschwitz. Porquê?
Adorno diz que não pode haver poesia depois de Auschwitz. [George] Steiner, que também foi convidado às conferências, afirma que a cultura pós-Auschwitz deve ser uma reflexão crítica sobre a cultura. Concordo com ambos quando reprovam a indústria cultural, a cultura para o consumo. Há uma diferença entre ler Homero ou Proust e ver um filme sazonal que desaparece rapidamente.
Defende uma cultura elitista?
Defendo a raiz da cultura, a essência que está na origem da civilização. E não só da europeia, refiro-me também aos ensinamentos de Buda, ao Bhagavad Ghita, à cultura islâmica: àquilo que assegura a continuidade da civilização. Não acredito que um filme como "A Guerra das Estrelas" esteja ao mesmo nível de Shakespeare, não acho que daqui a cem anos tenha a importância que Shakespeare ou Dante têm na cultura europeia. O problema da civilização actual é que é muito superficial e não se interroga sobre os sentidos da existência. Nas grandes obras de arte, nos grandes romances, há uma mensagem que é necessária. Não podemos viver sem significados.
Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.
Artigo: "A 'Guerra das Estrelas' e Shakespeare não estão ao mesmo nível"
Actividade em ionline