Gripe A
Hospitais obrigados a reforçar urgências com médicos inexperientes
Publicado em 23 de Novembro de 2009
Em Guimarães, doentes já ultrapassam os números de um surto de gripe sazonal. Direcção clínica vai colocar internos do segundo ano a assegurar bancos. Bastonário discorda
A epidemia ainda vai no início e vários hospitais já têm as salas de espera a abarrotar, sem capacidade para responder aos doentes que chegam todos os dias. No hospital de Guimarães, o director clínico, Dias dos Santos, afirma que o número de pessoas atendidas já supera em cerca de uma centena os valores de um surto de gripe sazonal - que todos os anos entope o atendimento. Por mais que reorganize o serviço, não há clínicos suficientes para completar as escalas. E decidiu que esta semana passará a reforçar as equipas "requisitando os internos do segundo ano que o hospital está a formar."
Os planos de contingência para a epidemia permitem que os serviços de saúde adoptem várias medidas de excepção. Algumas unidades (hospitais e centros de saúde) já começaram a cancelar consultas e cirurgias não urgentes, libertando meios para atender a gripe. Outras estão a reduzir de 48 para 24 as folgas dos médicos, após os bancos. O mais certo é as férias nesta altura serem canceladas. O Hospital da Estefânia anunciou o recurso a clínicos na reforma. Contudo, para o hospital que no fim de semana esteve nas notícias devido a tempos de espera que chegam às seis horas, recorrer a aposentados não é solução.
"Não estamos em Lisboa, no Porto ou em Coimbra. Não há médicos reformados a que possamos recorrer com facilidade. E os outros hospitais também estão com dificuldades, não nos podem ceder pessoas", refere o responsável do Centro Hospitalar do Alto Ave, onde se inclui a unidade de Guimarães.
Por isso, Dias dos Santos optou por requisitar os cerca de 50 internos do segundo ano (que estão a fazer a formação em várias especialidades médicas) para se ocuparem da triagem nas urgências. Nos próximos dias, será pelas mãos destes jovens médicos em formação que irão passar os cerca de 500 doentes que todos os dias se têm deslocado àquela urgência.
A ideia não agrada ao bastonário da Ordem dos Médicos. Pedro Nunes sublinha desconhecer o plano do hospital, mas lembra que os internos só têm autonomia quando completam o segundo ano, e que colocá-los a ver doentes é uma "irresponsabilidade". "Os internos fazem urgências para aprender a sua especialidade, não para fazer trabalho de especialistas." E garante que a Ordem dos Médicos vai estar atenta porque quando ainda não têm autonomia para desempenhar funções "devem ter sempre alguém a tutelá-los".
O director-geral da Saúde, Francisco George, explica que as várias zonas do país não estão a ser afectadas da mesma maneira e, por isso, foi dada carta-branca a cada hospital e Administração Regional de Saúde para pôr em prática aquele que considera ser o melhor plano. As autoridades afirmam que este é apenas o início e as próximas duas semanas serão cruciais para perceber o evoluir da epidemia. O Norte e Lisboa e Vale do Tejo continuam a ser as regiões mais afectadas pela gripe pandémica.
Mesmo com a gripe ainda no início, o número de pessoas com sintomas a deslocar-se a uma unidade de saúde já supera o pico de há dois anos de gripe sazonal, que levou o então ministro da Saúde, Correia de Campos, a alargar horários dos centros de saúde para evitar que os hospitais entupissem. Nos últimos sete dias, o Ministério da Saúde contabilizou quase vinte mil doentes atendidos. Em 2007, 16 mil numa semana obrigaram a abrir a alargar o período de atendimento dos médicos de família.
No Hospital Amadora-Sintra, são as urgências pediátricas que mais têm sofrido um aumento da pressão. De uma média de 160 a 180 casos, passou para 320 a 350. Fonte oficial da unidade refere que 60% dos casos são confirmados como gripe A.
António Martins Baptista, clínico do Curry Cabral, em Lisboa, e da Associação Portuguesa de Medicina Interna, defende que a epidemia teve como vantagem obrigar os hospitais a pensar e corrigir falhas que existiam. No entanto, por mais preparação e planos de contingência, sublinha que "a confirmarem--se as previsões mais pessimistas para a epidemia, não há sistema de saúde que não colapse". Naquela unidade de Lisboa, a média diária de casos de gripe nas urgências é de 20 a 25 por dia. Medidas adicionais só quando estes duplicarem. Nessa altura, o hospital abrirá uma urgência só para os casos suspeitos da doença.
A medida mais drástica do plano de contingência para uma situação de epidemia prevê que, em último caso, sejam instalados hospitais de campanha e tendas para atender doentes. Ainda longe da situação actual. As unidades de cuidados intensivos deverão também ser esvaziadas de outros doentes, porque são são mais difíceis de improvisar de raiz.
Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.
Artigo: Hospitais obrigados a reforçar urgências com médicos inexperientes
Actividade em ionline