Neste PSD desnorteado, a determinação vale muito. Por isso, o tempo corre contra qualquer adversário de Passos Coelho. Mesmo Marcelo
A evidência já tem dois meses, mas só agora os sociais-democratas parecem ter despertado para o óbvio: a permanência de Ferreira Leite na liderança do PSD até Maio é um absurdo que prejudica seriamente o segundo maior partido português e uma democracia que se pretende dinâmica.
O prolongamento do consulado de Ferreira Leite, ferido de morte em Setembro, foi ratificado pelo conselho nacional do PSD e, apesar de algumas vozes de protesto e do dedo no ar de Passos Coelho, a ficção construída pela cúpula laranja não tem encontrado grandes obstáculos. Tratando-se de um partido de poder, do qual se espera massa crítica e ambição, a falta de ânimo dos sociais-democratas só não causa mais espanto porque o desnorte que os afecta foi promovido a fatalidade.
A crise só é comparável à do Sporting, embora ainda mais difícil de resolver. Um clube de futebol pode sempre encarar o mundo inteiro como potencial fonte de soluções para problemas imediatos (mesmo que depois decida contratar um treinador português incapaz de incutir a mínima esperança aos próprios crédulos); um partido está irremediavelmente limitado ao rectângulo português, que fica ainda mais pequenino quando a unidade de medida são as ideias políticas.
Este último ruído de fundo no PSD, com as distritais de Lisboa, Porto e Faro a exigir a realização urgente de eleições directas (embora a urgência venha com dois meses de atraso), foi desencadeado pela notícia de que Marcelo Rebelo de Sousa só está à espera de que a liderança zombie de Ferreira Leite marque as directas para entrar no ringue. Quanto mais depressa isso acontecer, melhor para o professor.
É que, com todas as desvantagens em relação a Marcelo, desde logo um carisma incomparavelmente inferior, o candidato solitário tem demonstrado uma qualidade apreciável nesta fase negra do PSD: determinação.
Passos Coelho sabe aonde quer chegar e diz aonde quer chegar. Por incrível que pareça, o PSD desceu a um nível de descrença em que até uma mera demonstração de vontade é louvável.
Quanto mais semanas passarem, mais a eventual estratégia de Marcelo, seja lá qual for, tenderá a ser confundida com indecisão e medo. Marcelo nada tem a provar? É quase verdade. Quando se pensa em inteligência, pensa-se em Marcelo. Quando se pensa em rasgo, Marcelo. Quase se pensa em estratégia, Marcelo. Mas não é em Marcelo que se pensa quando a palavra é liderança, com tudo o que isso implica de coragem, capacidade de criar consensos e de gerar laços de confiança.
E ainda que o professor possa reunir essas virtudes que se esperam de um líder, a verdade é que não conseguiu evidenciá- -las nos tempos em que conduziu a segunda reencarnação da AD. É certo que as qualidades de liderança de Passos Coelho estão igualmente por provar (o PSD não é a "jota"), mas essa é uma questão indissociável de tudo o que é novo.
O dilema dos sociais-democratas passa também por aí: renovar, com todos os riscos associados à mudança, ou prosseguir caminho com variações de uma mesma dinastia. Se a única hipótese visível de renovação se chama Passos Coelho, esse é outro drama. Só que um partido com as responsabilidades do PSD não pode ficar eternamente no divã do psicólogo.
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