Tráfico de gordura humana para fabrico de cosméticos na Europa com intermediários italianos

Publicado em 20 de Novembro de 2009   
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As autoridades peruanas investigam uma alegada rede de tráfico internacional de gordura e tecidos humanos, aparentemente destinados ao fabrico de cosméticos na Europa, que pode ter causado dezenas de vítimas durante vários anos, disse hoje o ministro do Interior.

Os factos, "parecem incríveis mas é a verdade", insistiu hoje o ministro do Interior, Otavio Salazar, perante a incredulidade geral. "Será necessário estabelecer porque é que há uma procura no estrangeiro". acrescentou.

Neste caso de contornos ainda incertos, sabe-se que o bando suspeito se chamava "Pishtacos" (equivale a degoladores em quechua), numa referência a uma personagem lendária da cultura andina que matava e desmembrava as suas vítimas para lhes vender os tecidos.

Este contexto complicou aliás o inquérito, porque os habitantes dessas zonas rurais "por medo de também eles desaparecerem", não denunciaram factos conhecidos, e limitavam-se a falar de ´mitos´ ou ´lendas´, afirma a polícia num comunicado.

Desde o início de Novembro, foram detidos quatro peruanos, três homens e uma mulher, em Lima e Huanuco, a 400 quilómetros a Nordeste. Pelo menos sete pessoas são procuradas, duas das quais são cidadãos italianos identificados a partir de escutas telefónicas, indicou o procurador Jorge Sans.

Um dos italianos terá regressado à Europa, segundo ele.

Até hoje só há um homicídio: um homem de 27 anos raptado em meados de Setembro na região de Huanuco, e cujos restos mortais foram encontrados. Foram apreendidos 17 litros de gordura de origem humana.

A polícia, que se apoiou em confissões, deu muitos pormenores sórdidos sobre o destino das vítimas decapitadas, desmembradas, sendo a gordura extraída do tórax por transpiração, com o calor de velas. Esta alquimia macabra foi realizada durante dois a três dias em casas abandonadas ou isoladas.

Os intermediários italianos "suspeitos" compravam aparentemente a gordura aos detidos, para depois a venderem aos laboratórios europeus", sublinhou o juiz.

Os preços poderão atingir os dez mil euros, segundo a polícia.

Desconhece-se o número de vítimas. O alegado líder do bando, Hilario Cudena, 56 anos, falou de "várias" ao longo de mais de 30 anos.

De um momento para o outro, uma centena de desaparecimentos ocorridos há vários anos na região tornaram-se suspeitos para a polícia. Mas as autoridades policiais não encontraram mais quaisquer outros restos humanos, "lançados para os rios e precipícios", segundo os suspeitos.

O general da polícia Eusebio Félix aconselhou prudência face às confissões de Cudena, considerado cínico e mitómano por um perito psicológico.

"Mas encontrámos indícios suficientes para estarmos quase 100 por cento seguros de que estamos na presença de um caso de 'pishtacos'", disse.

O 'pishtaco', personagem sinistro que através dos tempos tomou a aparência do "estrangeiro", do "não-índio", atacava as mulheres ou passageiros isolados, para as matar, desmembrar e vender a sua gordura e tecidos para com ela fazer lubrificantes, sabões, unguentos ou cremes diversos.

A incerteza que rodeia o caso foi alimentada pelo cepticismo de vários cirurgiões peruanos, hoje citados pela imprensa.

Estes espantam-se com um 'modus operandi' artesanal e fastidioso, quando grandes quantidades de gordura humana extraída em cirurgia e de qualidade mais pura, fazem parte dos resíduos hospitalares e são por isso de fácil obtenção.



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