Há longos meses que os consumidores se andam a conter, devido à tempestade económica, comprando apenas o indispensável para sobreviver, como hortaliças, fraldas, medicamentos - e sapatos. Sapatos? Os norte-americanos, pelo que parece, não conseguem andar sem sapatos novos. Botas, botins, ténis, sapatos de salto - nos últimos meses, vendem-se todos bem, enquanto a economia tenta recuperar.
Os executivos e analistas do comércio a retalho dão várias explicações, por vezes disparatadas. A favorita de muitos é a de que os consumidores consideram os sapatos mais necessários do que, por exemplo, vestidos, botões de punho ou malas, e, por isso, sentem-se menos culpados quando os compram. "Eu deduzo que é porque os sapatos se gastam mais do que as malas de mão," defende Marie Driscoll, analista da Standard & Poor's Equity Research e adepta de racionalizar as suas compras de calçado. Vive em Nova Iorque e vai a pé para todo o lado. "O meu argumento é: 'Posso gastar 150 a 300 dólares [100 a 200 euros] em sapatos, porque são o meu carro.'"
Muitos sapatos, é claro, podem ser comprados por muito menos, o que os torna um prazer adequado à recessão. A maioria dos sapatos comprados nos dias de hoje tem preços moderados, segundo os retalhistas e investigadores de mercado. Os executivos da Macy's afirmam que o calçado feminino custa normalmente metade de uma mala de mão de qualidade equivalente. Além disso, o custo por utilização de um par de sapatos é bastante inferior ao de um vestido ou fato, que apenas podem ser usados um determinado número de vezes numa semana antes que os colegas comecem a mandar bocas. E sapatos novos dão vida a roupas velhas, sendo uma alternativa mais barata à compra de novas indumentárias.
back to basics Outra teoria popular é a de que a economia inspirou uma mentalidade de "regresso ao básico", levando as famílias a jantar e a fazer férias em casa, bem como a preferir actividades gratuitas ao ar livre que requerem calçado confortável ou resistente. Scott Savitz, fundador e director-executivo do Shoebuy.com, um retalhista de calçado online, afirma que as vendas de calçado desportivo, como o da Timberland, Merrell e Adidas, são fortes. "Pode-se gastar milhares de dólares para ir de férias ou comprar sapatos de caminhada", diz Savitz, cuja empresa acrescentou no último trimestre mais de 90 marcas de sapatos à sua oferta, numa altura em que a maioria dos retalhistas cortava no inventário.
Os compradores de sapatos das maiores cadeias de venda também são atraídos pelos modelos para crianças e bebés, especialmente na época de regresso às aulas. Os sapatos deixam de servir às crianças e os pais preferem sacrificar-se a si próprios do que economizar com os filhos. Entre as explicações mais curiosas para justificar a força das vendas de calçado, está a de que as mulheres - que contribuem para a maior fatia do mercado do calçado norte-americano - ficam mais animadas com a compra de sapatos do que quando experimentam calças de ganga ou vestidos de noite.
"Os sapatos democratizam a moda", afirma Kathryn Finney, autora do blogue "Budget Fashionista". "Uma mulher talvez não possa comprar um vestido Zac Posen se usar o número 42, mas pode comprar um par de sapatos Jimmy Choo."
Ou, como diz Jennifer Black, presidente da empresa de estudos de mercado Jennifer Black and Associates, "É divertido comprar sapatos. Talvez parte do divertimento se deva ao facto de não nos sentirmos gordas. E de não termos calor. É cansativo experimentar roupa, especialmente calças justas."
Realmente, os sapatos são aquilo a que os comerciantes a retalho chamam compra emocional. Eileen Lewis, directora da estratégia de moda da Zappos.com, conta que os consumidores andam a optar por sapatos de cores vivas, como amarelo e vermelho, "algo que dê nas vistas e traga alegria."
Jamie Boucher, advogada em Washington, comprou recentemente um par de sapatos de salto com 70% de desconto numa loja local. "Penso muito mais no preço do que antes", conta Boucher. "Mas continuo a precisar de sapatos." As tendências da moda também têm o seu papel. As camisolas volumosas e os leggings estão em voga, sendo um bom estilo para mostrar os sapatos, diz John D. Morris, analista de vendas da BMO Capital Markets. Os retalhistas afirmam que as botas estão a vender especialmente bem. Um porta--voz da J.C. Penney explica que os consumidores não se cingem a um tipo de botas para o Inverno, mas criam "guarda-roupas de botas" completos, comprando botas acima do joelho, botas sem biqueira, botas pelo tornozelo.
Finney acrescenta que, como hoje em dia o consumo conspícuo está fora de moda, os sapatos permitem às pessoas actualizarem o guarda-roupa sem serem ostensivas. "Não é o mesmo que usar um saco com o monograma Louis Vuitton", explica. "Há uma tendência para se ser um pouco mais recatado."
As vendas de calçado estão em grande há já três meses. Aumentaram 7,9% em Outubro, relativamente ao mesmo período do ano passado, segundo o SpendingPulse, um serviço informativo da MasterCard Advisors que calcula as vendas com base em todas as formas de pagamento, incluindo dinheiro, cheque ou cartão de crédito. Em Setembro, as vendas subiram 7,8% em relação ao ano anterior. Em Agosto, as vendas de sapatos aumentaram 0,5%.
As vendas de calçado em Outubro totalizaram 1,5 mil milhões de dólares (mil milhões de euros), o montante mais elevado de qualquer Outubro desde, pelo menos, 2006. Nos relatórios de venda do mês passado das maiores cadeias de comércio a retalho como a J.C. Penney, Dillard's e Ross Stores, o calçado é referido como uma das categorias com mais saída. "A venda de sapatos tende a aumentar, sem dúvida", afirma Rory Tahari, vice-presidente da marca de roupa Elie Tahari. "É uma das categorias que mais vende."
Há algumas semanas, Larry Smith comprou uns sapatos de pele Allen Edmonds para substituir um velho par. "Precisava de sapatos", conta Smith, que vive em Indianápolis e dirige um site educativo para crianças. "Continuamos a comprar o que queremos, mas nada de extravagâncias."
Não é provável que a subida das vendas de calçado dos últimos três meses conduza ao crescimento das vendas anuais no sector do calçado, visto que o início do ano foi muito fraco para todos os tipos de produtos. A Packaged Facts, uma empresa de estudos de mercado, estima que as vendas de calçado em todo o ano de 2009 irão cair até dois dígitos, tal como outras categorias. Ainda assim, uns poucos meses de boas vendas podem ser sinal de que os consumidores estão a sentir aquilo a que Marshal Cohen, analista-chefe para a indústria da empresa de estudos de mercado NPD Group, chama "fadiga frugal".
"Estão cansados de terem de ser tão comedidos e de não gastarem em nada," declarou recentemente perante a secção de calçado apinhada de uma loja Bloomingdale's em Short Hills, Nova Jérsia, durante os saldos. "Consertar aquelas botas outra vez? Não. É altura comprar um par novo."
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