Música

Nada vai mudar e os Massive Attack nunca serão perfeitos

por Vanda Marques , Publicado em 21 de Novembro de 2009   
Em Fevereiro sai novo álbum do grupo. Entretanto, andam pela Europa com os novos temas do EP "Splitting the Atom". 3D apresenta ao i os concertos de Lisboa
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Um bocejo disfarçado, mas suficientemente longo, denuncia o cansaço de Robert del Naja. O mentor dos Massive Attack já não é um jovem, mas tem de aguentar três meses de concertos. Com 44 anos, confessou ao i por telefone que só deseja regressar a casa. "Se me perguntassem há uns meses se queria fazer uma digressão, responderia que mal podia esperar para começar. Agora, estou ansioso por voltar a casa. Estou cansado. Tem sido duro. Fizemos 50 concertos. É muito..."

Mas descansem os fãs de Robert del Naja (ou 3D) e de Grant Marshall (Daddy G), que os dois concertos dos Massive Attack em Lisboa não vão ser cancelados. Ainda há energia mais que suficiente para subir ao palco. "Quando vamos para outra cidade e sentimos a vontade da banda e do público, isso dá-nos o combustível necessário para continuar." Mesmo assim, porquê duas noites seguidas na capital? Resposta de 3D: "Não sei."

Arriscamos uma explicação: a fiel comunidade de fãs portugueses. "Temos memórias muito funky daí. Há sítios no mundo onde sentimos uma forte ligação com o público, como Lisboa, Atenas, Paris, Nápoles ou Glasgow", conta Robert del Naja.

O pretexto para a digressão dos britânicos que começou em Setembro é o novo álbum, que sai a 8 de Fevereiro. Sim, pode parecer estranho fazer uma tour antes de o álbum sair, mas, para resolver essa questão, os Massive Attack editaram o EP "Splitting the Atom". "Nos concertos vamos tocar temas do novo álbum, músicas que não estão em CD e temas antigos revisitados. Fizemos arranjos diferentes para os manter interessantes. Mas não vamos dizer quais são. É surpresa."

Sete anos à espera Desde "100th Window", em 2003, que a banda de Bristol não editava um álbum de originais. Três anos depois, lançaram o best of "Collected", que na altura suscitou sentimentos contraditórios. Dizem alguns que só se assina um best of quando a carreira chega ao fim. E isto, afinal, não era coisa impossível. "Nunca imaginei que tivéssemos tanto sucesso. Cada disco parecia o último. Mas acho que vamos desistir quando os concertos tiverem 500 pessoas. Isso vai significar que já se fartaram de nós."

O novo disco demorou este tempo todo porque 3D e Daddy G têm sempre outros projectos. As questões políticas são um deles. A Amnistia Internacional, a Cruz Vermelha ou a Greenpeace são algumas das ONG que apoiam. Mas a razão principal não foi essa. "Tínhamos muito material e fizemos uns dois ou três álbuns. Em 2006, andámos ocupados com o best of e pelo meio tivemos outros projectos, como cinema ou pintura."

Em Fevereiro, se tudo correr como planeado, poderemos ouvir temas dos Massive Attack com Damon Albarn, ex-Blur e Gorillaz, Guy Garver, dos Elbow, Martina Topley-Bird, entre outros. Aliás, são as colaborações que prometem tornar estes Massive Attack de hoje uma novidade desafiante. "Não somos um grupo. Para mim, um grupo é um conjunto de pessoas que se juntam para tocar, compor. Caminham lado a lado, profissionalmente falando. Acabam por se odiar, separam-se, casam-se e têm filhos. Um projecto não é nada disso. Vai mudando de forma com o tempo e a força depende das colaborações." A relação entre os dois mentores dos Massive Attack é a base do projecto. Da colaboração surgiu o trip-hop de Bristol, nos anos 90. Mas ainda faz sentido falar nisso? "Alguma vez fez? Há um legado, ficou uma estilização da música de que as pessoas gostaram. Mas tudo evolui."

Só a relação dos dois permanece. Apesar de terem estilos diferentes e de muitas vezes nem trabalharem no mesmo estúdio, têm um "casamento duradouro". "Ele é mais DJ, traz uma ideia de beat ou de algo que ouviu, não é pessoa de se sentar e ficar ali a repetir o som. Há uns tempos, quando estive com o Tricky (ex-Massive Attack) em Paris, lembrei-me dos dias em que nos embebedávamos e escrevíamos letras. Era um lado mais rudimentar."

Mais de 20 anos depois de começarem, o que os motiva a fazer música? Não foi já tudo inventado? "É muito difícil encontrar um conjunto de acordes e melodias que não tenham sido escritas. Mas a forma como elas se conjugam, o ritmo e até a apresentação fazem a diferença. Por exemplo, não vejo valor nenhum em tentar voltar aos anos 80, ao pop. Bandas punk pós-Joy Division ou pós-indie são chatas."


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