Pergunta
Caro José Couto Nogueira,
Escrevo-lhe simplesmente para auscultar a sua opinião sobre as praxes académicas. O meu filho, rapazola de quase 20 anos, frequenta o ensino superior. Em tertúlias, quando estendemos pontes geracionais, divergimos no na opinião sobre as praxes académicas. Para mim, são rituais exímios em declarações de desamor por uma caloirada imberbe, bobos de uma corte fútil, carente de bom senso. Ele contrapõe, aliando o conceito de tradição e pândega. A sujeição ao ridículo é justificada pela integração no clã? Eu não creio.
Atentamente,
Júlia Barros
Resposta
Cara Júlia,
Em 1727, D. João V proibiu a praxe devido à morte de um aluno. Portanto já nessa época o tratamento alarve dos caloiros existia, era brutal e provocava reacção das autoridades. Durante séculos a praxe foi um exclusivo da Universidade de Coimbra, que também era a nossa única universidade, mas não alastrou ao Porto e a Lisboa quando estas cidades passaram a ter ensino superior. Houve períodos mais intensos mas nunca deixou de assustar, arreliar e humilhar os caloiros. A partir de 1834 torna-se mais violenta e as denúncias de excessos são constantes. Proibida em 1911 com a implantação da República, e suspensa em 1961 com o Luto Académico contra a repressão do Estado Novo, é praticamente abandonada no pós-25 de Abril. Quanto volta, no final da década de 1970, já é alargada a praticamente todas as universidades (assim como o traje académico de capa e batina, que sempre fora exclusivo de Coimbra) e depois chega ao ensino secundário. Devido aos inúmeros casos de violência, muitos causa de estragos físicos e psicológicos graves, é terminantemente proibida pelo ministro Mariano Gago em 2008 e 2009 ? prova de que continua a existir. Ainda recentemente houve um escândalo no Colégio Militar que, não se referindo à praxe da entrada na faculdade propriamente dita, tem a ver com as prepotências a que os alunos mais velhos se julgam no direito de exercer sobre os mais novos.
Pois é, a praxe sempre existiu, e vai continuar a existir. Tem a ver com os rituais de iniciação que persistem em muitas actividades e ambientes fechados. Há praxes nas forças armadas e até nos cursos de pilotagem ? quando o aluno "é largado", isto é, voa sozinho pela primeira vez, ao aterrar leva um valente banho de mangueira. Também tem a ver com a truculência própria da adolescência, a tal "integração no clã", e, presentemente, com um certo vazio de ideais que leva à procura de substitutos bastante estúpidos.
Os defensores falam em tradição, mas, como já aqui se observou a propósito de outras questões, a tradição é um argumento vazio. Há boas tradições, que é bom que se preservem, e há más tradições, que quanto mais cedo desaparecerem melhor. Por outro lado, uma praxe não tem necessariamente de ser violenta ou perigosa - mas é sempre desagradável e humilhante, e certas pessoas têm um menor grau de tolerância a serem sujeitas à vontade dos que podem só porque podem.
De um ponto de vista ético, é claro que não tem ponta por onde se lhe pegue. Não há qualquer mérito, vantagem ou valor em torturar e achincalhar os mais novos, mais fracos ou recém-chegados a um novo ciclo de estudos. Continua, por uma das razões que perpetuam a violência infantil: quem foi sujeito a ela sente prazer em desforrar-se quando chega a sua altura de estar na mó de cima.
Agora tente convencer o seu filho... Sujeite-o a uma praxe doméstica desagradável, a ver se ele percebe.




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