Gripe A
"45 milhões para vacinas não se justificam e arriscamo-nos a ficar com muitas por usar"
Publicado em 20 de Novembro de 2009
O médico Miguel Oliveira da Silva questiona opções do governo para gerir a pandemia
"O governo tirou claros dividendos políticos" da epidemia." A decisão de gastar 45 milhões de euros na imunização "não se justifica" e "arriscamo-nos a ficar com muitas das vacinas por usar". A posição é de Miguel Oliveira da Silva, obstetra e presidente do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida.
O médico não tem dúvidas sobre a segurança da imunização - "não tem riscos significativos que sejam conhecidos". Mas tem dúvidas sobre a forma como a pandemia está a ser gerida pelas autoridades portuguesas. "A avaliação das prioridades que têm sido seguidas e a história desta epidemia só vão ser escritas daqui a uns meses. E está longe de ser um mundo perfeito", afirma.
Para o especialista do Hospital de Santa Maria, "há uma histeria em torno do novo vírus e da vacina que vai muito além da mera evidência científica." E o Ministério da Saúde está a alimentá-la: "A dois meses das eleições não se falou de outra coisa e o governo surgiu como o hiper-protector da população" perante a ameaça da epidemia, acusa. Miguel Oliveira da Silva não poupa palavras para criticar "a amplificação política de uma preocupação com a saúde pública, que serve aos especialistas de saúde pública, e uma opção injustificada com a despesa" feita na compra da imunização para 30% das pessoas. O médico acredita que, tendo em conta que o vírus é, na esmagadora maioria dos casos, benigno, "podiam ter encomendado metade das vacinas".
O obstetra do Hospital de Santa Maria diz que as opções até agora tomadas "pecam por excesso" e recorda as previsões, sempre revistas em baixa, da população que vai ser afectada pelo novo vírus: "Primeiro diziam que ia afectar um terço da população. Depois, seriam 10%. Neste momento já nem se sabe."
O presidente do colégio de Pediatria da Ordem dos Médicos, Lopes dos Santos, sublinha que "é um clínico" e não tem "estudado em profundidade os dados sobre a vacina", mas diz que, "por uma questão de maior precaução", preferia que se tivesse optado pela imunização sem adjuvante (substância que serve para potenciar a dose de imunização utilizada) para as faixas mais sensíveis, como as crianças e as grávidas. "É um excesso de precaução, por haver poucos estudos. Mas acredito que daqui a uns meses vamos todos dizer que a vacina é segura". Ainda assim, este especialista do Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, acredita "que há motivos para acreditar na segurança". Lopes dos Santos refere que, para as crianças de risco, a vacina é uma escolha óbvia. "Nas outras, é uma opção" dos pais e é "também um acto de cidadania, porque evita a circulação do vírus". E considera que os pediatras "têm como obrigação discutir estas questões, como com qualquer outro tratamento". "A maior parte acaba por aceitar ser vacinada". Mas também lembra que apanhar o vírus "permite uma imunização mais completa e duradoura" do que a vacina.
Autópsia para breve O resultado final da autópsia ao feto que morreu no Hospital da CUF Descobertas, em Lisboa, deve ser divulgado hoje. Os resultados preliminares apontam para uma quebra da irrigação sanguínea, mas a unidade não adianta mais informação. O Infarmed confirma que, tal como acontece com todos os medicamentos, a Agência Europeia do Medicamento acompanha e regista os casos que possam ocorrer após a toma da vacina - como prevê o sistema de farmacovigilância. Mas garante que a vacina é segura. O Ministério reserva eventuais comentários para depois de serem conhecidos os resultados das análises.
Rute Araújo
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