Somália

Piratas: Sexo e drogas na Somália com os milhões do resgate do Alakrana

por Enrique Pinto-Coelho, Publicado em 20 de Novembro de 2009   
Terminado o inferno dos marinheiros, começa o pesadelo do governo, assediado pela oposição A justiça espanhola vai investigar a origem do dinheiro que financiou o resgate e o papel dos intermediários
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Os quatro milhões de dólares (2,7 milhões de euros) pagos pela libertação do pesqueiro espanhol Alakrana, na costa somali, serviram para financiar uma festa rija em Haradhere, onde vive a maioria dos piratas. A acreditar no relato do enviado especial do jornal madrileno "El Mundo", "nesta aldeia de seis mil habitantes todos os negócios estão abertos sem hora de fecho. Após a pilhagem dos espanhóis, esse maná caído do céu, os merceeiros fazem o Agosto [inflacionam os preços] em Haradhere", garante Aideed Abdirahman.

O jornalista descreve uma celebração com oito casamentos, rajadas de kalashnikov, prostituição e consumo de khat - uma droga alucinogénia muito popular na Somália. "Os veículos todo-o-terreno dos dealers não param de chegar. Vendem e vendem. Tudo é negócio em Haradhere."

O atuneiro basco-galego Alakrana foi abordado em alto-mar a 2 de Outubro, e só foi abandonado pelos salteadores na terça-feira passada, após 47 dias de cativeiro. Uma das exigências para libertar o barco foi o pagamento de uma "indemnização" de 50 mil dólares (33 mil euros) para as famílias de Abdu Willy e Raageggesey Adji Haman, dois piratas detidos pela armada espanhola 24 horas depois do assalto que continuam presos em Espanha.

Durante o sequestro, o armador e o capitão ficaram no convés, longe dos restantes 34 tripulantes, encerrados no refeitório do barco. O capitão do pesqueiro, Iker Galbarriatu, assegura que receberam "golpes, ameaças, insultos, cuspidelas e muitas [outras] coisas" que prefere não especificar.

O armador, Ricardo Blach, conta que, na véspera do resgate, houve roubos e discussões entre piratas. "Começaram a brigar, ameaçando-se com pistolas. Isso era muito habitual entre eles." Os salteadores "arrasaram com toda a mobília" e ficaram com os computadores, telemóveis e outros objectos - incluindo roupa - dos marinheiros.

Ontem, o Parlamento espanhol rejeitou uma moção de censura ao governo pela gestão da crise, criticada sobretudo pelo Partido Popular (PP) e pelo Partido Nacionalista Basco. Quarta-feira, o líder do PP, Mariano Rajoy, reprovou a "incompetência" e "improvisação" do Executivo, e exigiu a demissão da vice-primeira-ministra e dos ministros da defesa e da justiça.

O titular da justiça, Francisco Caamaño, nega que Espanha "como país" tenha pagado o resgate - uma afirmação ambígua que dá a entender que a soma terá sido depositada, pelo menos em parte, pelos proprietários do Alakrana. O ministro atribuiu a libertação dos marinheiros a "soluções encontradas no âmbito internacional" e elogiou o papel das autoridades nacionais: "São evidentes os resultados da diplomacia espanhola. [...] Os cidadãos privados de liberdade estão finalmente a voltar para casa", acrescentou.

O Ministério Público decidiu previamente investigar os escritórios de advogados europeus e outros intermediários que negociaram o resgate - ao contrário do que aconteceu em anteriores sequestros, como o dos pesqueiros Playa de Bakio e Albacora IV. O International Maritime Bureau (IMB), calcula que os cerca de 500 piratas que há na Somália foram responsáveis por 195 sequestros este ano, mais de metade do total de assaltos em todo o mundo (360).

Actualmente há 11 barcos e 262 tripulantes retidos por piratas nos mares do planeta. Esta semana, outro atuneiro espanhol, o Txorri Gorri, conseguiu afastar um esquife suspeito graças à intervenção de quatro agentes de segurança privada que se encontravam a bordo. A fragata portuguesa Álvares Cabral impediu ontem outro ataque no Golfo de Aden, ao largo da Somália. Para controlar o aumento da pirataria, trinta barcos de uma força naval conjunta da União Europeia, NATO e Armada dos EUA patrulham a zona desde há vários meses.


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