Xadrez

O dia em que Kasparov foi uma diva da ópera

por Mariana Pinheiro, Publicado em 20 de Novembro de 2009   
Um dos maiores xadrezistas do mundo esteve em Portugal há dez anos. O i recuperou algumas das histórias do génio
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Trazer cá o Kasparov era como fazer passar um elefante pelo buraco de uma agulha. Pior ainda. "Havia uma série de papelada para preencher, e mais contratos e guarda-costas... Ele queria uma data de coisas às quais não estávamos habituados. Era muito difícil, era quase impossível trazê-lo cá. Parecia uma diva da ópera cheia de caprichos", diz João Serra Pereira ao telefone, enquanto procura o CD com as fotografias do evento. "Deixe-me cá ver, ele esteve em Lisboa há uns dez anos, seguramente. Veio por causa de uma acção da Câmara Municipal de Lisboa que tinha como objectivo desenvolver o xadrez na cidade", conta Serra Pereira sobre a empreitada de trazer a Portugal um dos melhores xadrezistas de sempre.

"O Kasparov tinha deixado bem claro que queria batedores para atravessar o trânsito mal saísse do aeroporto. Queria também uma suite de luxo e internet no quarto. Ora, na altura não havia internet assim com tanta facilidade. Tivemos de andar a instalar cabos e uma linha especial lá no Altis. Foi um alarido", acrescenta, relembrando os tempos em que trabalhou no departamento de desporto da Câmara.

Garry Kasparov esteve em Portugal há dez anos por causa da celebração do Dia Internacional do Xadrez. Deu uma conferência de imprensa e inaugurou um centro dedicado à modalidade. Mas o ponto alto do evento foi quando jogou contra 20 jovens em simultâneo. Uma delas chamava-se Ana Baptista. "Ele, que era o melhor do mundo na altura, estava muito tenso. Saiu do hotel muito contido, o que é estranho. Ia defrontar só crianças. Jogou muito concentrado, ganhou tudo, como é óbvio, mas só depois disso, já estávamos a jantar no Mercado do Peixe, em Monsanto, é que ficou mais relaxado", conta Serra Pereira, que deixou de jogar xadrez no início dos anos 90. "Ele adorou o peixe. Gostou tanto que voltamos lá no dia seguinte. Disse-me assim: 'Numa variante que ganha, nunca se mexe.' Isto é linguagem de xadrez, mas é a mesma coisa que dizer que numa equipa de futebol que marca muitos golos nunca se troca os jogadores de posições".

João Serra Pereira contou ao i que o pavilhão Carlos Lopes "estava repleto", que "era lindo de se ver" e que "impunha respeito". "Era uma altura em que o xadrez ainda tinha uma expressão considerável e era jogado por muita gente dos 8 aos 80." E como era Kasparov como pessoa? "Hum... um tanto ou quanto narcisista, um bocado presunçoso, achava-se o melhor. E tinha um QI enormíssimo", ri.

Por alguma razão é que Garry Kasparov, com apenas 22 anos, se tornou o Campeão Mundial de Xadrez mais novo de todos os tempos. Foi considerado pela rating ELO (método utilizado para se calcular a força relativa entre xadrezistas) como número 1 do mundo quase continuamente, desde 1986 até à retirada da competição a 10 de Março de 2005. Agora dedica-se à escrita e à política. E em 2008 tentou ser Presidente da República. Mas não conseguiu.


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