culinária

Maria de Lourdes Modesto: "Não sou fanática por cozinhar" - vídeo

por Joana Stichini Vilela, Publicado em 14 de Novembro de 2009   
Antes do fenómeno Jamie Oliver houve Julia Child. Mas antes dos dois houve um fenómeno nacional. Na semana em que a história da norte-americana chega ao cinema, o i conversa com a maior diva da cozinha portuguesa
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A diva da gastronomia portuguesa, Maria de Lourdes Modesto, 79 anos, não sabe quantas vezes contou esta história. Em 1958, quando se estreou na RTP, "num programa para mulheres", era proibido entrar nos estúdios. Mas nesse dia quebraram-se as regras. Acabou a emissão e estava rodeada de curiosos. Queriam saber quem era a "rapariga de olhos rasgados", como lhe chamaria o temido crítico de televisão Mário Castrim, que ousara chupar alcachofras em directo. No sossego do seu gabinete, o director de programas, Domingos Mascarenhas mandou saber quem era a novata - "é uma professora do Liceu Francês. Mas vai fazer outras coisas" - e decidiu no momento: "Não vai não. Só vai cozinhar".

Numa época em que "a televisão era toda engravatada", surpreendeu pela naturalidade. "Pelo factor descabelado", resume. "Não era como as outras. Não fui representar. Ia com a mentalidade de professora." E o público gostou. "Lá vem a 'alcachofrinha'", diziam-lhe na rua. Nos bastidores chamavam-lhe "maluca". Deixava cair tampas no chão e não se ralava. "Aparentemente", frisa, sentada de frente para as suas estrelícias, na casa da linha do Estoril. "Quem tem um jardim quer sempre despedir o jardineiro", desabafará. Sempre foi uma perfeccionista.

Lourdes e Julia

A jovem alentejana, que estudara economia doméstica e "nem era um ás na cozinha", tinha sobretudo personalidade. Tal como o britânico Jamie Oliver ("inimitável", diz) e Julia Child, arrisca, a maior cozinheira da televisão norte-americana, que a partir de quinta-feira vai poder ver no filme "Julie e Julia". O "The New York Times" não teve dúvidas. "Portugal's Julia Child", chamou-lhe, em 1987, num artigo de primeira página. Mais correcto seria, "America's Maria de Lourdes Modesto". Afinal, a portuguesa começou primeiro.

Julia Child já tinha 49 anos quando exibiu pela primeira vez os seus 186 centímetros de altura na TV. Estávamos em 1962. Acabava de publicar com duas amigas o livro "Mastering The Art of French Cooking". Convidaram-na a ir a um programa de entrevistas explicar como se fazia uma omeleta. E lá foi, entusiasta, desengonçada, excêntrica. Vinte e sete espectadores pediram mais. Quatro anos depois chegava à capa da revista "Time".

Deste lado do Atlântico, Modesto já era uma estrela. A terceira a nível mundial, depois de Raymond Oliver, em França, e de Françoise Bernard, no Luxemburgo. "Os espanhóis nunca conseguiram arranjar alguém que causasse tal impacto", comenta. "Peço desculpa pela imodéstia. Isto tudo já passou". Chegaram a convidá-la para contracenar numa peça de teatro com Amália Rodrigues. Domingos Mascarenhas pôs um ponto final no assunto: "Uma vedeta a representar já chega".

Bastidores do fenómeno

O programa "Culinária" esteve 12 anos no ar. "Acabava sempre da mesma maneira, com um sorriso perfeitamente idiota: 'muito boa noite. Obrigada pela atenção que me dispensaram'. Depois ficava pendurada à espera que me tirassem do ar", ri. "Logo a seguir diziam-me, 'Srª Dª Maria de Lourdes, tem 14 chamadas em linha."

Mandavam-lhe aventais, penteadores, sapatinhos de dormir feitos à mão e até taças e conchas de prata. As cartas chegavam às centenas. Algumas eram de amor. A maior parte continha dúvidas e pedidos de receitas. Também lhe perguntavam onde comprara a roupa. Uma camisa de padrão leopardo vinda de Paris entusiasmou as portuguesas. A cozinheira seguia as tendências da moda. Se por cá diziam que era "exótica", em França, chamavam-lhe "a rapariga do ano seguinte", conta. "Nunca me achei bonita."

O mais difícil passava-se nos bastidores. "Sofríamos uma grande pressão", explica. Um director da RTP gostava de lhe dizer, "a senhora lembre-se, cada minuto que está no ar são 60 contos". Assinava um contrato por programa, sem garantias de estar de volta ao ecrã na semana seguinte. Um ministro do Estado Novo chamou-lhe "inimiga número um da cozinha portuguesa", por fazer pratos franceses. E o público também reclamava. O pior foi que quando decidiu fazer uma receita tradicional: não era assim, responderam os espectadores em coro. Cada família sua receita, já se sabe. Em 1960, resolveu o problema com um concurso de receitas, uma região por programa. Choveram cartas de todo o país.

A pesquisa durou 20 anos, incluindo idas a casas de espectadoras, como uma mulher que vivia na Av. Infante Santo, em Lisboa e queria ensinar-lhe a fazer papas de moado, um doce com sangue de porco. "Não podia sair porque tinha um bebé. Quando a criança me viu, disse, 'papa'. Emocionou-me muito." À Madeira e aos Açores teve mesmo de ir. Não havia televisão nas ilhas.

Bíblia

No início da década de 80 começou a ficar surda. Suspeitou-se de um tumor. Resolveu compilar o material. "Não tinha o direito de não o fazer", diz. "Tive de ir aos sítios para fotografar e me certificar das receitas." Nascia a bíblia "Cozinha Tradicional Portuguesa" (Verbo), que já vai em 400 mil exemplares vendidos.

Seis anos depois de ter deixado a televisão, a RTP ainda recebia cartas de espectadores que a queriam de volta. Maria de Lourdes resistiu. Saíra com uma depressão. Os programas tinham deixado de ser em directo. Desaparecera o "contacto quase físico" com o espectador. "Sofri imenso. Lembro-me de ver um programa sobre arroz, perfeito tecnicamente, e de dizer ao meu marido, 'isto não interessa nem ao menino Jesus'". Além disso, acrescenta, "não se deve ficar assim tanto tempo".

Neste momento, a diva prepara mais um livro, desta feita sobre cogumelos. Só cozinha quando tem de ensinar. Se tiver plateia, melhor. "Até pode ser a coisa mais chata do mundo...", diz. "Não sou fanática por cozinhar", reconhece. "Lá fora chamam ao que eu faço jornalismo culinário. Cá caía o Carmo e a Trindade. Acho que sempre fui uma divulgadora."



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