Família

Freud não explicou. Afinal o cérebro dos bebés não é uma folha em branco

Publicado em 14 de Novembro de 2009   
Uma antologia de estudos científicos revela que os bebés até têm noções básicas de física e de matemática
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A ciência já não pensa o mesmo dos bebés. Novos estudos científicos mostram que as crianças que ainda não sabem falar não se preocupam apenas com comer e dormir e que afinal o seu cérebro não é uma tábua rasa imersa numa confusão de estímulos. São inteligentes e têm até noções de probabilidades, física e aritmética. E mais: em algumas coisas são até mais conscientes que os adultos. "Os estudos científicos mostram que os bebés são mais abertos às experiências e aprendem com mais facilidade. Essas habilidades resultam num nível bastante elevado de consciência e não aquele, limitado, que durante anos lhes atribuímos", afirma Alison Gopnik, psicóloga americana e professora da Universidade da Califórnia, em "The Philosophical Baby" (O Bebé Filosófico).

Gopnik reuniu no livro uma série de estudos científicos de psicólogos, linguistas e neurocientistas, que dedicaram dez anos a estudar a mente infantil. Utilizando novas ferramentas, os investigadores descobriram que os cérebros dos bebés fervilham de actividade porque estão mais despertos para o mundo que os adultos e conseguem apreender um espectro maior de sensações. "Até os bebés mais pequenos são capazes de formular hipóteses a respeito de como o mundo funciona", conclui Alison Gopnik.

Os jogos de laboratório - com recurso a peluches e brinquedos - ajudaram a desvendar as ferramentas que os bebés usam para entender a realidade e conseguiram provar que eles nascem com capacidades que surpreenderiam os pais menos babados: estranham resultados errados de contas simples, são capazes de relacionar proporções e compreender probabilidades e revelam qualidades morais inatas - preferindo o objecto que ajuda outro ao que não o ajuda.

Para mostrar as noções de física de crianças que ainda não falam, a psicóloga Elizabeth Spelke - cujo centro de estudos na Universidade de Harvard é conhecido por "Spelkelândia" por ser uma mistura de berçário e laboratório - simulou três truques. Os bebés de três meses ficaram surpreendidos por um objecto que estava em cima de uma mesa (preso ao tecto por um fio transparente) continuar no mesmo lugar depois de a mesa ser arrastada, ou quando um boneco colocado atrás de uma cortina desaparece assim que a cortina se abre, e ainda quando um comboio, através de uma animação digital, consegue atravessar um muro sem o quebrar. Os especialistas concluíram que todos os pontos de interrogação que surgiram na mente dos bebés nesses testes indicam que eles têm noções de gravidade - porque sabem que o objecto devia cair no chão -, noções de continuidade - porque sabem que a matéria não desaparece -, e noções de solidez - porque sabem que o comboio não pode atravessar o muro sem o destruir.

Teresa Velez ficou boquiaberta no dia em que a filha Leonor, de 19 meses, conseguiu perceber que o bisavô estava à procura de um rádio: "Ela levou-o pela mão até ao quarto e apontou para o rádio. Ficámos espantados por ela conseguir associar as palavras do avô àquele objecto, entre tantos que lhe tinha tirado." O linguista americano Daniel Swingley estudou essa capacidade dos bebés de reconhecerem palavras e concluiu que antes de começarem a falar as crianças já reconhecem centenas delas: podem não entender o seu significado, mas memorizam a estrutura sonora.

Os bebés usam a mesma estratégia para perceber que acções conduzem a determinados resultados. Exemplo mais óbvio: é assim que descobrem que ao carregar no interruptor a luz se acende. Patrícia Castanheira, mãe de três filhos com idades entre os cinco meses e os quatro anos, enumera outros: "Tinham perfeita noção de que o telefone era para levar ao ouvido e lembro-me de o Frederico agarrar no perfume e o pôr no pescoço."

Catarina Brito, mãe da Laura, de 16 meses, ficou igualmente surpreendida com atitudes da filha que "envolvem algum raciocínio". "A Laura sabe que há objectos em que não pode mexer. À segunda tentativa de agarrar num castiçal, mal olhei para ela, ela tentou disfarçar e tirou a mão. Fiquei espantada, porque sempre associei o disfarce a um comportamento de adulto." Catarina Brito recorda ainda a capacidade da filha de reconhecer "o que está no sítio errado": "Se puser uma meia em cima da cabeça de um boneco, ela ri-se. Ela sabe que a meia é para o pé e não para a cabeça."

Os novos estudos revelam ainda que os bebés precisam de interacção social para aprender e que o afecto e a atenção são os factores mais importantes para o desenvolvimento. "Aquilo que as crianças observam mais atentamente são as pessoas à sua volta", adianta Alison Gopnik. "Temos de parar de tentar fazer as crianças mais espertas", alerta a psicóloga. "Elas já são espertas que chegue."


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