Obituário
Morreu o empresário discreto que Angola tinha debaixo de olho
Publicado em 11 de Novembro de 2009
António Figueiredo, líder do grupo ETE, morreu aos 78 anos numa clínica na Suíça. Estava tetraplégico devido a um acidente de barco
António Figueiredo era um dos três cidadãos portugueses que, segundo o Estado de Angola, poderiam esclarecer o que aconteceu aos 104,6 milhões de euros que Luanda mobilizou desde 1994 para comprar 49% do capital do Banco Internacional do Funchal (Banif) - e cujo destino está a ser investigado pela Procuradoria-Geral da República de Portugal.
O dinheiro foi depositado na mão de representantes portugueses (intermediários) e entretanto "desapareceu". O Estado de Angola percebeu há nove anos que não era titular das acções do Banif e que o dinheiro não tinha sido devolvido a Luanda. Fez por isso uma queixa junto do Ministério Público português, em Junho 2008, indicando três nomes para a investigação: Francisco Cruz Martins, Eduardo Capelo Morais e António Figueiredo. Este último foi sócio da Sopar, sociedade que deteve acções do Banif, e assumiu funções nos órgãos sociais do Banif entre 1994 e 2000.
O presidente executivo da ETE (Empresa de Tráfego e Estiva), antigo tenente- -coronel na reforma com 78 anos, morreu ontem de paragem cardíaca na clínica suíça de Notwtwill, onde se encontrava desde Junho deste ano após ter sofrido um acidente de barco ao largo da Sardenha. Em Luanda e em Lisboa correu o rumor de que esse acidente não terá sido alheio aos episódios que envolveram o dinheiro dos angolanos mobilizado para a compra do Banif, mas um inquérito das polícias italianas ao incidente revelou-se "inconclusivo".
O acidente do veleiro, pilotado por um mestre deu-se quando o barco colidiu com uma rocha que não estaria assinalada na carta de navegação. António Figueiredo teve várias complicações cardíacas e chegou a estar em coma induzido. Ficou tetraplégico.
"A probabilidade de recuperar totalmente era muito reduzida", admite ao i um colaborador do grupo. O plano de tratamento deveria terminar em Março de 2010. "Esteve muito tempo com respiração assistida, o que esforçou o coração", adianta fonte da ETE. Há menos de 15 dias, o empresário recebeu a visita de alguns membros do grupo. Falou da empresa, de política, de futebol, do trânsito na Baixa e da nova auto-estrada na zona de Linhó, onde morava.
Saudável e activo apesar da idade, António Figueiredo ainda detinha as funções de liderança na ETE - é recordado como um "workaholic inveterado" e "o colaborador mais dedicado do grupo".
Os seus próximos garantem que a questão da sucessão na ETE não se põe porque o empresário "tinha organizado as cerca de 30 empresas de forma a que pudessem sobreviver sem ele".
Porém, a designação do sucessor não estava resolvida. O empresário deixa sete filhos, quatro homens e três mulheres, mas só quatro estão ligados aos negócios do pai. Há anos, António Figueiredo terá tentado clarificar a sua sucessão através de um testamento, mas quem conhece o grupo sabe que não há herdeiro designado. Os planos de colocar a ETE na bolsa (com a abertura de capital do grupo familiar) ficaram por concretizar. Recentemente, a ETE - cujo volume de negócios ronda os 200 milhões de euros e emprega 600 pessoas - tinha concorrido à exploração dos silos da Silopor em Lisboa.
Além das empresas que controlava, António Figueiredo, que era piloto-aviador, tinha duas paixões: os aviões e o mar (os barcos). O seu funeral está marcado para sexta-feira ao início da tarde.
A morte de António Figueiredo vem complicar o esclarecimento do caso Banif, cuja investigação conta já com depoimentos para memória futura da elite política de Luanda, incluindo alguns dos actuais ministros do governo de José Eduardo dos Santos. Entre 1994 e 2000 Luanda terá transferido milhões de dólares para contas em off-shores para suportar a compra das acções do banco. Há registo da compra de acções mas, entretanto, a maioria dos veículos off-shore foram encerrados, encobrindo o rasto do dinheiro. Com Ana Suspiro
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