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Censura derruba directora da revista mais livre da China

Publicado em 11 de Novembro de 2009   
Demissão em massa ameaça a sobrevivência da "Caijing", a revista de economia mais influente e livre do país
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Hu Shuli pôs a liberdade de imprensa a passar por ali. Na China, país onde as rédeas dos media estão nas mãos do Partido Comunista, há artigos censurados e jornalistas presos ou a receber envelopes com dinheiro, ela alargou as fronteiras da liberdade de imprensa - a ponto de ser considerada a mulher mais perigosa do país. Hu Shuli fez da "Caijing" (ou seja, "Economia e Finanças") uma revista de referência, conhecida pela denúncia de casos de corrupção no governo, no sistema bancário e em empresas e de casos de manipulação no mercado de capitais. Porém, Hu Shuli decidiu abandoná-la. Por pressões e censura.

A directora apresentou anteontem a demissão por se sentir pressionada pelos proprietários da revista. As divergências quanto ao futuro da linha editorial da publicação terão ditado a saída. Enquanto a directora e fundadora queria continuar a cobrir temas polémicos e a fazer jornalismo de investigação, a empresa pressionava para que os conteúdos fossem aligeirados e se dessem "notícias positivas" sobre alguns anunciantes.

A demissão ocorre um mês depois de o director-geral renunciar ao cargo. Wang Shuo, subdirector da revista, já anunciou a saída no Twitter. Oito editores e 60 jornalistas apresentaram também a demissão nos últimos dias e, segundo a agência de notícias Efe, espera-se que 80% da equipa - composta por 180 pessoas - peça a demissão até sexta-feira. "Pouco importa para que tipo de publicação iremos trabalhar", afirmou uma repórter da "Caijing" ao "The Wall Street Journal". "Vamos segui-la para onde ela for."

As demissões em massa estão a apertar o cerco à primeira tentativa de jornalismo independente naquele país. Aos casos de corrupção e suborno a revista acrescenta temas da reforma judicial aos serviços hospitalares. Conquistou elogios por ser a primeira a denunciar a reacção lenta do governo durante a epidemia da pneumonia atípica, num momento em que as autoridades tentavam abafar a dimensão da situação, e foi também a primeira a revelar a precariedade de centenas de escolas que desabaram no terramoto de Sichuan.

"Caijing": um produto e um símbolo Hu Shuli foi nos últimos anos a cara pública da luta pela transparência nos media chineses, e quase sempre conseguiu driblar a censura. Desde cedo impôs condições.

Quando aceitou o convite para dirigir a revista, em 1998, exigiu em troca independência editorial e um orçamento confortável, que permitisse aos jornalistas dispensar presentes, recompensas e as habituais gorjetas na imprensa chinesa.

Dentro e fora de portas, "Caijing" é considerada pelos analistas de media internacionais muito mais que uma revista influente: é um símbolo de sobrevivência à censura. Hu Shuli nunca ousou dizer que tinha rompido os limites à asfixia da imprensa. Dizia antes que tinha aprendido a contorná-los. Podia esticar a corda, mas nunca ultrapassá-la.

Ao "The New York Times", após receber o prémio de director internacional do ano, em 2003, confessou: "Vamos até à fronteira e podemos até empurrá-la, mas nunca a atravessamos." Agora acaba de ceder à pressão.


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