O verdadeiro choque tecnológico, ilustrado por um diálogo fictício entre Anthímio de Azevedo, apresentador de "O Tempo" durante mais de 20 anos e Eládio Clímaco, cicerone de "Os Jogos Sem Fronteiras" e todos os programas de fim de tarde da RTP gravados ao ar livre.
- Estou sim, Eládio, é o Anthímio. Queres vir cá a casa provar as iguarias que faço na minha nova iogurteira?
- Não podias ter mandado uma mensagem para o meu bip? Estava aqui a tentar decifrar um estereograma.
- Isso faz-te mal à vista, Eládio. Passa aqui por casa e traz aquela cassete dos antigos festivais da canção. Rebobinada.
- O rebobinador está para arranjar e já prometi ir jantar a casa de uma tia que vai fazer castanhas na cloche. É que estamos no São Martinho, Anthímio.
- Ah, está bem. A Serenella Andrade, está boa?
- Está a fazer perguntas na "Casa Cheia", ao lado do videowall. Vai chover hoje?
- Sempre a mesma conversa. Não sabes usar o teletexto? É o número 575. Que maçada!
Cloche
Antes do microondas e antes da bimby, houve a cloche. Este mini-forno eléctrico era o melhor amigo da comida requentada – e ainda está para ser inventado melhor electrodoméstico para assar castanhas.
Pager/Bip
Muito popular nos anos 90 e série de televisão passadas em hospitais, os pagers conheceram o seu auge em 1996 com uma promoção da Coca-Cola. Os aparelhos vermelhos ainda se podem comprar na internet (no site OLX, por 15 euros) mas já não têm outra utilidade para além do coleccionismo. O serviço de pager foi descontinuado em 2002, altura em que havia menos de 5.000 clientes.
Teletexto
Hoje, para além de poder aceder à metereologia através do comando da TV, é possível ir ao teletexto pela internet. Esta mistura patusca de retrocesso tecnológico com boa vontade faz lembrar aquela ideia de lançar uma Wikipedia em papel. É enternecedor. O Teletexto apareceu na RTP em 1995 mas foi rapidamente superado pela internet. No entanto, ainda não há melhor maneira de saber a que horas é a preia-mar em Leixões (teclar 5-7-3 e esperar).
Iogurteira
Um dia, na década de 80, alguém pensou : “Ir a um supermercado, caminhar até à secção de lactícinios, escolher e pagar os iogurtes? Isso dá muito trabalho. O melhor é começar a fazer os meus em casa”. O processo de fabrico caseiro de iogurtes não era propriamente física quântica – mas parecia, dado o aspecto futurista das máquinas. Pormenor divertido: a maioria das receitas de iogurtes caseiros incluía uma dose de iogurtes naturais, comprados no supermercado.
Estereogramas
Oftalmologistas sádicos em todo o mundo esfregaram as mãos de contentes quando a moda dos estereogramas pegou. Estas ilusões óptimas, em que uma imagem 2D era tranformada em 3D depois de muito cerrar de olho e lacrimejar, foram imensamente populares nos anos 90. Uma fonte de angústia para quem nunca enxergou outra coisa para além de pontos coloridos, os estereogramas apareceram e desapareceram como uma Macarena.
Tradutor de bolso
As escolas básicas e secundárias proibíram-nos. Circulavam notas para os pais – “agrafem aí na Caderneta do Aluno” – a avisar que não se podiam levar para as aulas tradutores de bolso. O espanto que a medida criou não se deveu à rigidez das escolas mas sim à existência do próprio objecto. Em Portugal pouca gente terá comprado um tradutor de bolso, mas os que apareceram foram suficientes para gerar o pânico nas salas dos professores.
Rebobinador de cassetes
O DVD matou o VHS, assim como o VHS matou o BetaMax. Mas o rebobinador de cassetes, quem tramou o rebobinador de cassetes? O leitor de cassetes. Quando essas máquinas começaram a ter mais botões para além do Stop e Play, as coisas complicaram-se para o mercado dos rebobinadores de fita. Ameaçados de extinção, os fabricantes reagiram: máquinas em forma de carros desportivos e o boato de que os leitores de VHS estragavam a fita. Falhou.
Videowall
Ninguém tinha destas coisas em casa, mas era ver loja de electrodomésticos que não tivesse estas televisões empilhadas em castelo-de-cartas. Quem tentou ver a final do México 86 num destes paquidermes televisivos lembra-se das dificuldades em discernir os postes da baliza. Bons momentos passados à frente de um videowall? Só Orlando Guerra, o homem que mais vezes preencheu o Cartão de Ouro no programa Casa Cheia, em frente a um destes colossos.
Reebok Pump
Não havia miúdo que não tivesse, ou quisesse ter, estas sapatilhas com uma parte insuflável que, a julgar pelos anúncios, nos faziam ter superpoderes. A Reebok relançou este mês as icónicas Pump, assinalando assim os 20 anos deste modelo com uma bomba de ar que faz com que o sapato se adapte melhor ao pé. A onda de revivalismo e os concursos de afundanços – que tornaram estes ténis célebres – são a melhor justificação para o regresso.
Rotulador de fita
Quando é que foi a última vez que precisou de etiquetar alguma coisa? Por mais incrível que pareça, houve uma altura em que grande parte da população não passava sem um rotulador de fita. O ímpeto etiquetador esfriou e com ele foram estes objectos de economato futurista. Nas mãos de um garoto de dez anos é mais provável que sirva como arma laser de fingir do que máquina com que se pode escrever o nosso nome nas coisas – a primeira coisa que um adulto faz quando reencontra este objecto.
Artefactos de um futuro próximo:
Que chatice vai ter de ser explicar aos nossos filhos e netos: “Um dia um senhor norte-americano achou que era boa ideia escrever o que nos apetece em menos de 140 caracteres. E toda a gente aderiu”. Isto é futurologia, acreditar que tudo o que aparece nesta coluna está condenado a desaparecer pode ser tão disparatado como fazer as malas para assistir num lugar bonito ao final do mundo de acordo com o calendário Maia. Seja como for, a quantidade de gente que se inscreve no Twitter para “ver como é” insuflou o entusiasmo à volta da rede social, mas o balão de ar quente parece estar a esvaziar-se.
Bimby
Os artigos que se vendem depois de uma demonstração comercial em casa do cliente têm uma taxa de sucesso fabulosa. A Bimby convence todos com os seus encantos e faz dos seus donos aquilo que Pacheco Pereira descreve como “single issue persons”. Obcecados com o que o seu pedaço de lata consegue fazer, transformam-se em obstinados revendedores não oficiais. Mas a Bimby pode ser apenas mais uma moda e ter o mesmo destino que a cloche ou a iogurteira – duas coisas sem as quais os seus donos não conseguiam viver. Por enquanto a Bimby é para sempre, enquando durar.
Aparelhagem hi-fi
Daquelas que ocupavam grande parte da sala de estar. Daquelas que eram uma autêntica peça de mobília –um tríptico estéro: aparelhagem mais duas colunas. A miniaturização da tecnologias fê-las reduzir de tamanho, e o tamanho reduzido das salas de estar condenou-as à extinção. O iPod e os mp3 vieram dar o golpe de misericórdia a um objecto que agonizava. Será enterrado ao lado do móvel-bar e da sala de jantar, outros artefactos que não resistiram à chega do século XXI.
Corrigido às 12h de 11 de Novembro




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