visto de fora

No Iraque e no Afeganistão a guerra foi subcontratada

por Thomas Friedman, Publicado em 11 de Novembro de 2009   
As duas guerras que os EUA travam estão a ser sustentadas com a contratação em massa de serviços privados. Seria muito melhor ter aliados que fornecedores
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Em 2003 estava de viagem no Iraque e tinha combinado uma reunião na Zona Verde com um membro do Conselho de Governação do Iraque, o governo provisório iraquiano de então. A segurança era apertada. Estava acompanhado do meu tradutor iraquiano, um homem de meia--idade que tinha sido professor. Quando chegámos ao conselho depois de uma longa caminhada, mostrei os meus documentos de identificação a dois jovens soldados dos EUA, fardados. Disseram-me que esperasse, foram para dentro e saiu um homem em traje civil, com um colete de pescador e chapéu australiano.

Não chegou propriamente a identificar-se, mas era óbvio, pelo logótipo estampado na camisa, que se tratava de um "civil contratado". Quando tentei explicar porque estávamos ali, disse-me que me calasse e que assim permanecesse até me mandarem falar. A seguir ordenou ao tradutor iraquiano que se deixasse ficar sentado - estava um calor de ananases -, enquanto ele foi ver se o iraquiano com quem eu me ia avistar estava disponível. Tenho de confessar que tanto eu como o tradutor tínhamos vontade de lhe dar um murro nas ventas. Não pude deixar de tentar adivinha a quem é que aquele tipo prestaria contas. Se eu o aborrecesse e ele se tornasse agressivo, a quem me poderia queixar?

Foi o meu primeiro encontro com um dos muitos seguranças privados, os tais civis contratados, que cumprem funções de guardas de segurança, fornecedores de serviços e auxiliares de assistência e que se têm tornado parte integrante do esforço de guerra dos EUA no Iraque e no Afeganistão. Alguns foram mesmo usados em Abu Ghraib para proceder a "interrogatórios avançados" - que é como quem diz tortura - aos suspeitos de terrorismo. Hoje em dia não há operação considerada sensível de mais para ser subcontratada.

Agora que se debate quantos mais efectivos devemos enviar para o Afeganistão, é capaz de ser boa altura para debater o nível a que chegámos na contratação de pessoal privado para funções que o Departamento de Estado, o Pentágono e a CIA antigamente cumpriam sozinhos.

A cada ano que passa são mais as tarefas essenciais da segurança nacional - diplomacia, desenvolvimento, defesa e até espionagem - "transferidas para as mãos de contratados privados - muito mais do que o público pensa", disse-me Allison Stanger, professora do Middlebury College. Uma das principais razões que nos têm permitido sustentar as guerras do Afeganistão e do Iraque com tão poucos aliados é este esquema de serviços.

"O Afeganistão e o Iraque", explica Stanger, "são as nossas primeiras guerras subcontratadas, diferindo das anteriores intervenções pela dependência sem precedentes do sector privado em todos os aspectos da respectiva execução. O pessoal contratado fornece segurança a elementos-chave e instalações sensíveis, incluindo as nossas embaixadas; alimenta, veste e alberga as nossas tropas; treina unidades do exército e da polícia; e chega a fiscalizar a acção de outros contratados. Sem uma força de contratados multinacional para preencher o vazio, precisaríamos de uma mobilização militar para levar a cabo as duas intervenções."

A outra hipótese era termos verdadeiros aliados.

Não sou contra a subcontratação, a melhoria da eficiência governamental ou a contratação das melhores pessoas para desempenhar tarefas especializadas. Mas deixámo-nos arrastar para uma situação em que estamos a subcontratar algumas das responsabilidades fulcrais do Estado: interrogatórios, segurança, promoção da democracia.

Em 2008, sublinha Stanger, cerca de 80% da dotação orçamental solicitada pelo Departamento de Estado saiu porta fora sob a forma de contratos e concessões. A principal entidade contratada de apoio do Exército no Iraque, a KBR, tem nesse país 17 mil empregados por ela contratados directamente.

Os militares dos EUA estão agora a propor um gigantesco projecto para o Afeganistão, para substituir o governo disfuncional desse país por um Estado que possa prestar serviço aos afegãos, de maneira a que estes não optem pelo lado dos talibãs. Poderia estar mais aberto a tal projecto se tivéssemos uma verdadeira aliança mundial para ajudar a suportar um esforço que durará décadas. Mas não temos. A opinião pública europeia não está a favor desta guerra e os nossos aliados contribuem com o número de efectivos estritamente necessários para obter a renovação do cartão de "aliado frequente dos EUA". Compensamos as faltas com o pessoal privado.

Sou antiquado: prefiro que os serviços que prestamos sejam o mais possível da responsabilidade de funcionários públicos cuja motivação e formação se dirige ao bem comum e a um patriotismo descomplicado, sem lugar ao lucro nem a ambições pessoais.

Jornalista

Exclusivo i/The New York Times

 

 



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