PRIMEIRO PLANO

O vazio da cultura

por Paulo Tunhas, Publicado em 11 de Novembro de 2009   
O programa para a cultura do governo propõe interacções, capital-semente para o design e a salvação do circo da lógica do mercado
Opções
a- / a+
Pode parecer pueril, admito, nesta altura em que as histórias de corrupção e de tráfico de influências andam ao rubro, uma pessoa ocupar-se com isto. Porém, desde que um amigo me passou o programa do governo para a cultura, ando muito intrigado. Não com histórias de subsídios e coisas assim: não. Parece-me perfeitamente aceitável - nalguns casos inevitável - que o Estado entre com dinheiro em vários sectores ligados à cultura, sobretudo num país em que a "sociedade civil" tende para o estatuto de entidade mitológica. É outra coisa. É a questão da linguagem e um ou outro pensamento avulso.

O programa do governo aponta como um dos "objectivos da política cultural criar condições para que os cidadãos portugueses sejam culturalmente mais qualificados e mais participativos nas práticas culturais e na definição das políticas de cultura no quadro de uma cultura de conhecimento, da criatividade e da inovação". Esta frase, sem dúvida redigida por um distraído beneficiário das Novas Oportunidades - que se propõe, logo a seguir, criar "espaços de encontro e de interacção físicos e virtuais" por esse país fora -, resume eloquentemente a vacuidade do programa. Uma vacuidade criativa cultivada no quadro da inovação interactiva qualificada e participativa da cultura da vacuidade, por assim dizer. O comentário mais caridoso é a abstenção de qualquer comentário.

Contudo, indo a casos concretos, os resultados não são menos surpreendentes. Assim, o governo anuncia a futura criação de "instrumentos de capital-semente" destinados "a fomentar e qualificar as estruturas de apoio [...] às empresas do sector industrial criativo e industrial cultural, designadamente a moda e o design". Eu, se fosse um agente "qualificado e participativo" na área da moda e do design (designadamente do design), aplaudiria provavelmente os tais "instrumentos de capital-semente". Não sendo, só faço a pergunta: por que carga de água a moda e o design? O mais estranho, no entanto, vem depois. O programa conclui-se com a enumeração de certas áreas que deverão ser particularmente acarinhadas (com "capital-semente", suponho) por não poderem "ser abandonadas à pura lógica do mercado". A linguagem ritual é péssima, mas não é isso que importa. O que é curioso é que uma das áreas mencionadas é o circo. O circo não pode ser "abandonado à pura lógica do mercado"? Estão maluquinhos? E as pipocas?

Claro que, dir-me-ão, não haverá dinheiro, como o governo perfeitamente sabe, para cumprir o programa (nem estas coisas nem, infelizmente, outras necessárias que lá constam), e que, portanto, não vem mal ao mundo disto. Talvez. Mas que é triste é. Triste da tristeza que a vacuidade inspira.

Professor do Departamento de Filosofia da Universidade do Porto

Escreve à quarta-feira


Qual a sua reacção:
Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.

Notícia relacionada

Close