Entrevista

"O dr. Silva Lopes que experimente viver com o salário mínimo nacional"

Publicado em 10 de Novembro de 2009   
Carvalho da Silva, líder da CGTP, diz que empresas podem cortar outros custos que não os salários
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Carvalho da Silva terá seguramente o gabinete com a melhor vista de Lisboa. Das janelas no Chiado, o líder da maior confederação sindical do país (CGTP) tem o Tejo a seus pés, mas também os vizinhos Banco de Portugal e Ministério das Finanças - ambos adversários nas batalhas sobre aumentos salariais que se avizinham. Carvalho da Silva - 61 anos, há 23 na liderança da CGTP - rejeita visões do emprego e dos salários puramente baseadas em números. Defende os aumentos em 2010, pedindo esforço aos empresários e o regresso do domínio da política sobre a economia.

Há uma pressão cada vez maior de empresas, economistas e do Banco de Portugal para, perante a conjuntura económica de crise, moderar ou congelar salários. Aceita este argumento?

Uma das causas da crise em que a sociedade vive resulta da persistência de reduzir a retribuição do trabalho. Observando-se a evolução da distribuição da riqueza nos últimos anos constata-se que a parte que vai para o factor trabalho vem diminuindo. Foi isso e a situação de crise que levou a que na cimeira intergovernamental - no âmbito da conferência anual da Organização Internacional do Trabalho (OIT) - tenha havido um pacto em que um dos apelos, sugerido pela OIT e assumido pelos governos, patrões e sindicatos, foi a não redução dos salários. Em Portugal é esta pedinchice. Não sabem fazer outra coisa, é uma vergonha. 2010 será o Ano Mundial de Combate à Pobreza e um factor relevante é que parte significativa da pobreza resulta hoje dos baixos salários.

O economista José Silva Lopes disse há dias que aumentos salariais em 2010, com as empresas fragilizadas pela crise, seriam "fábricas de desemprego"...

O dr. Silva Lopes que experimente viver com o salário mínimo nacional dois ou três meses e depois se pronuncie.

Mas não falava só do salário mínimo, estava a falar dos aumentos em geral.

O trabalho e o emprego têm dimensões simultaneamente económicas, sociais, culturais e políticas. As políticas salariais não são uma questão meramente da economia. A própria economia não melhora apenas por factores quantitativos: há também os de ordem social, cultural e política, que muitas vezes têm mais influência que os factores económicos. Tenho pena de ver declarações destas. Como se os problemas que o mundo está a viver não fossem evidência de que o problema não está nos salários dos trabalhadores, mas numa acumulação injusta de riqueza.

A verdade é que as empresas enfrentam uma série de adversidades que são rígidas e sobre as quais não têm influência nenhuma: euro alto, petróleo caro, financiamento caro...

Sim, os empresários portugueses como os dos outros países, mas não se voltem contra os trabalhadores. É verdade que para muitos empresários, em particular os pequenos, o seu espaço de manobra é muito limitado, mas é preciso outra atitude. Seria bom que houvesse pressão para descer o custo do dinheiro, estratégias para reduzir custos energéticos e com telecomunicações, custos de relacionamento com a administração pública. Estratégias de gestão que dêem margem nos salários. Não me digam que não aguentam um aumento do salário mínimo de 80 cêntimos por dia, por trabalhador. Então não é possível um bocadinho de pressão [nos custos] que dê essa margem? Evidente que é.

Segundo dados recentes da Comissão Europeia, Portugal registou em 2009 a maior subida dos custos do trabalho (5,8%), acima da produtividade. Em 2010 apesar da quebra para 0,8%, o custo continua a ser dos mais altos e acima da média. É sustentável ter aumentos salariais muito acima da produtividade?

Se os salários acompanhassem a evolução da produtividade em Portugal seriam hoje bem maiores. Se há conceitos manipulados são os da produtividade e competitividade. Os nossos trabalhadores são tão produtivos como os outros, o que é demonstrado, por exemplo, pela emigração. Mas um trabalhador com uma enxada, por mais que cave não compete com um tractor: tudo depende do produto em causa e das técnicas. É tempo de não sermos governados pelas opiniões tecnocráticas e de a política ter o seu papel.


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