Ensaio
Vida e Morte do Muro de Berlim
por José Medeiros Ferreira, Publicado em 09 de Novembro de 2009
Muro de Berlim foi um dos mais sólidos símbolos da Guerra Fria, embora pouco se saiba desta. Não foi de certeza o muro que começou o conflito Leste-Oeste, embora lhe tenha dado farto alimento. A Guerra Fria já estava instalada há mais de dez anos quando o muro foi construído. Mas foi o seu derrube que terminou com ela, permitiu a reunificação da Alemanha, suscitou o retraimento militar, e depois a dissolução da URSS, a liberalização da Europa de Leste, tudo acontecimentos formidáveis para quem os viveu, com consequências que perduram. A surpresa que terá constituído a queda do Muro de Berlim entre os responsáveis políticos, os peritos em política internacional e os estudiosos em geral é um atestado tremendo de amadorismo intelectual nas mais altas esferas e uma eloquente prova dos malefícios que as ideologias provocam nos mais agudos espíritos, quando expostos à propaganda e desconhecedores da História, essa grande matéria-prima do conhecimento político.
Em primeiro lugar, a construção do muro pelas autoridades da República Democrática Alemã foi seguida com uma grande placidez pelas potências ocidentais em Agosto de 1961. Tive oportunidade de consultar em Boston, nos arquivos do Presidente Kennedy, alguns documentos que demonstram o embaraço, mas também a paciência, com que se encarou em Washington essa medida, vista como puramente defensiva, senão circunstancial, em termos da divisão da Alemanha.
Os Estados Unidos tinham ganhado a prova do bloqueio de Berlim ocidental em 1948-1949 e, por enquanto, contentavam-se com ela e com os pontos de passagem entre as duas Alemanhas garantidos para as forças aliadas.
Em segundo lugar, resta ainda saber em que medida a Guerra Fria e o seu envelope ideológico de uma luta entre o comunismo e as sociedades abertas não serviu, em termos centro-europeus, para manter, com a tolerância das populações e dos responsáveis políticos, centenas de milhares de soldados estrangeiros nos territórios de países como a Alemanha.
Se nos lembrarmos da incomodidade que causaram em Berlim, nos anos vinte do século XX, as poucas dezenas de milhares de soldados franceses e ingleses previstos para estacionarem no território alemão e se evidenciarmos que, depois da II Guerra Mundial, foi o conflito Leste-Oeste a justificação para a presença de cerca de novecentos mil homens durante perto de 40 anos na Alemanha Ocidental e na Alemanha Oriental, à conta do perigo de algum expansionismo e da defesa de filosofias de vida, percebemos melhor o contexto do conflito Leste-Oeste em termos europeus. Tanto mais que a Guerra Fria terminou com a reunificação alemã, e só depois se deu a dissolução da URSS.
Em terceiro lugar, convém recordar neste dia de festa que, 15 anos antes da reunificação alemã, a Conferência de Helsínquia tinha consagrado a inviolabilidade das fronteiras saídas da II Guerra Mundial e o respeito pela integridade territorial dos Estados como os grandes factores para garantir a paz, a segurança e a cooperação europeias. Foi na CSCE [Conferência de Segurança e Cooperação na Europa] que se estabeleceu que a existência de duas Alemanhas, com as fronteiras reconhecidas pelos Aliados era o pressuposto em que assentava a segurança internacional. Chancelaram a acta final, em Agosto de 1975, todos os países europeus, nomeadamente a República Federal da Alemanha e a RDA, os EUA, a URSS e o Canadá. Que aconteceu nesses quinze anos que fez com que mudassem as perspectivas com que as maiores potências encaravam as suas condições de repouso?
Quanto a mim, e em primeiríssimo lugar, o êxito alcançado pela Comunidade Europeia, depois dos bem conduzidos alargamentos ao Reino Unido, à Irlanda e à Dinamarca, seguido da abertura aos países saídos de ditaduras e atrasados social e economicamente, como a Grécia, Portugal e a Espanha. O êxito desses alargamentos era bem visível no fim dos anos oitenta, graças não só à meta do Mercado Único marcada por Delors para 1992 Mas também à prosperidade de todos os estados-membros. O poder de atracção que a Comunidade Europeia exercia então em países como a Hungria ou a Polónia era evidente. Estava no Parlamento Europeu e pude observar esses sinais de aproximação. Antes, dedicara-me a conhecer melhor o processo histórico saído do fim da IIGM e notara diferenças nas soluções encontradas para os estados que faziam parte da Europa de Leste. Ora, se houvera percursos genéticos diferenciados na entrada da órbita soviética, seria de conceber o mesmo à saída. Mas o que se verificou entre 1989 e 1991 foi muito além desses pequenos passos dada a falência do modelo soviético.
Em meados de 1989 recebi em minha casa um scholar norte-americano que teve uma conversa premonitória sobre o futuro do continente europeu. Disse ele que considerava esgotado o COMECON: a URSS fornecia a preços muito abaixo dos de mercado o petróleo e o gás aos países da Europa de Leste, pelo que esse modelo teria os dias contados. Desfeita a feira, seria natural que a URSS retirasse as suas tropas e deixasse à sua sorte as «democracias populares» que evoluiriam assim para formas de liberalização política e de economia de mercado. Estas precisariam de ser ajudadas financeiramente do exterior. Ora nada seria de esperar de Moscovo neste particular e o académico também me alertou para o facto de Washington se considerar isenta do pagamento da conta da transição económica desses países, pelo que dentro em breve seria exigido à Comunidade Europeia que se ocupasse quase exclusivamente do vazio criado na Europa de Leste.
Pois tudo se passou como o norte-americano me anunciou, acrescido do facto da implosão do comunismo e da União Soviética. Com efeito, a queda do muro de Berlim, alguns meses depois, levou à unificação alemã dentro da Aliança Atlântica e da Comunidade Europeia, contrariando algumas previsões que apontavam a saída da Alemanha da CEE quando alcançasse a sua reunificação, ao fim da URSS e das democracias populares. Daí resultou o alargamento da NATO e a sucessão de tratados na União Europeia à procura do seu centro de gravidade (Maastrich, Amesterdão, Nice e Lisboa), tal foi o impacto da reunificação alemã e dos alargamentos a Leste.
A criação da zona euro também fez parte desse acervo, embora o Pacto de Estabilidade se tenha revelado uma armadilha e uma ilusão. E desde o ano passado que a crise financeira demonstra que a História não parou em 1989.
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Artigo: Vida e Morte do Muro de Berlim
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