Glória a 1989

por Bernardo Pires de Lima, Publicado em 09 de Novembro de 2009   
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Há quem argumente, com evidente saudade, que antes da queda do Muro o mundo era muito mais arrumado, entre outras razões, porque se sabia bem quem eram os adversários. Quem defende isto desdenha a liberdade, despreza a democracia e, lá no fundo, não quer aceitar o que aconteceu há 20 anos. Desejar o mundo pré-1989 é negar o direito à liberdade a milhões de espezinhados, em função de um mundo arrumado. Ter vontade de regressar ao passado é aceitar um fatalismo nas ditaduras, mesmo com exemplos contrários na Europa, na Ásia ou na América do Sul. Promover a "arrumação" da Guerra Fria implica negar os inúmeros conflitos internacionais que existiram. Por fim, valorizar o mundo pré-1989 é atirar para baixo do tapete a vergonha que o comunismo ainda hoje devia causar. Portugal, infelizmente, ainda está cheio de desavergonhados. Em Janeiro de 1989, Honecker declarava mais cem anos de vida para o Muro. Nove meses depois, Honecker caiu perante pessoas comuns que nos mostraram a podridão do regime "farol" de uma das metades do tal mundo arrumadinho. Os milhares que passaram a fronteira austro-húngara rumo à Alemanha Federal, os que gritaram em Leipzig e Berlim Leste por liberdade de circulação e reformas democráticas, esses sim, foram e continuam a ser símbolos das vontades individuais. Por isto é que ninguém soube prever a queda do Muro: foi demasiado genuíno. Há 20 anos, o mundo mudou sem violência e por valores centrados nas pessoas. Ainda bem. Glória a todas elas.

Investigador universitário


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