Entrevista

Cindy Sherman. A mulher perfeita para o músico da página ao lado

por Tiago Pereira , Publicado em 09 de Novembro de 2009   
Lado a lado com David Byrne, foi convidada para o júri do Estoril Film Festival em Madrid. Hoje aproveita para viajar entre os desejos da fotografia e os medos do cinema
Opções
a- / a+
As surpresas têm destas coisas: "Agora que entrevistou David Byrne, que lhe parece conversar com Cindy Sherman?" Para quem lê estas linhas, a resposta que demos é já óbvia. Encontrámos a fotógrafa - que para sempre deseja ser cineasta - numa pequena sala, escondida de qualquer olhar estranho. "Sei que ninguém me conhece mas prefiro ficar aqui, enquanto o David trata de ser mediático."

Este "David" é, claro está, o tal de Byrne, músico, criativo incurável, apaixonado por bicicletas. Os dois são "publicamente namorados" (como a própria Cindy nos diz) desde 2007. E ainda que estejamos perante um nome que fez a sua história e a merece destacada, é-nos inevitável a referência ao romance artístico que ali testemunhamos. "É normal as pessoas terem vergonha de me fazerem perguntas sobre o David, mas não percebo porquê", conta Sherman. Até porque pouco há a saber sobre o que se passa entre paredes: "Não gostamos muito de colaborar um com o outro. Aconteceu algumas vezes, não muitas. Talvez a única forma de isso se repetir num futuro próximo seja eu fazer um novo filme e conseguir que ele assine a banda sonora."

O regresso às artes do cinema é o fantasma maior dos dias de Cindy Sherman. Em viagem, nem a fotografia - o seu amor número 1 - a faz esquecer de tal tormenta: "Não tenho o hábito de andar por aí a fotografar toda a gente. Não sou como o David, que anda sempre com uma 35mm, máquina fotográfica, entenda-se, para toda a parte." Já comprou uma câmara de vídeo de alta definição, "para contemplar as maravilhas do digital"; já estudou tudo o que havia para saber sobre edição e montagem. Falta-lhe motivo, coragem e acima de tudo uma história. "Nunca fui boa a escrever, julgo que não tenho o sentimento necessário aos enredos." Só então poderá escapar ao "erro" que recorda da rodagem de "Office Killer", o filme que assinou em 1997: "Tenho de ter a certeza sobre o que significam expressões como 'grande plano' e outros termos técnicos." Enquanto nada disto se concretiza, a vida de fotógrafa é bem melhor: "Faço e desfaço. Paro para pensar e recomeço, mais decidida que nunca. Tudo isto sem assistente. Até agora, a vontade tem sido suficiente. E não implica dias de trabalho de 12 a 15 horas."

Mas não falemos mais de cinema - "quanto mais falo, mais medo tenho" -, que os dias pelo Estoril fazem-se das inevitáveis viagens de bicicleta a dois, de jantares sem horários rígidos, do registar imagens e pessoas "numa memória especial que mais tarde permite a sua transformação em retratos."

Cindy Sherman prepara-se para ser fotografada - "uma das piores coisas que podem fazer a um fotógrafo", confessa-nos. O tempo em conversa foi limitado, pelos compromissos de um festival onde desempenha o papel de "crítica de bancada" e pelos deveres de um namorado "paciente mas muito requisitado". Tudo o que se passa no Estoril por estes dias "é óptimo para voltar a fazer de Nova Iorque um sítio apetecível, sobretudo com o David. Sabe, ele é quase perfeito".


Qual a sua reacção:
Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.

Notícia relacionada

Close