As comemorações dos 75 anos da Acção Católica Portuguesa (ACP), que decorrem este fim-de-semana, vão servir sobretudo para mostrar que o movimento "está vivo", mas precisa de mais apoios da hierarquia da Igreja Católica.
A Acção Católica Portuguesa (ACP) nasceu em 1933, pela mão do cardeal Manuel Gonçalves Cerejeira e incentivo do Papa Pio XI, para estimular a participação dos leigos na Igreja Católica e, dessa maneira, estreitar a relação da Igreja com a sociedade.
A 16 de Novembro do mesmo ano torna-se organização nacional, cobrindo todas as dioceses do país e dando origem a 20 movimentos especializados, organizados por sexo e idade e segundo os "meios sociais" da época - agrário, escolar, independente, operário e universitário.
O trabalho era - e continua a ser - feito por leigos, mas sempre coordenado e dirigido por membros da Igreja. 75 anos depois, alguns movimentos sentem que a Igreja Católica já não lhes dá o mesmo valor.
"Somos um reflexo da própria Igreja e a Igreja já não são multidões, mas sim pequenos grupos. E durante as comemorações vamos poder afirmar que a Acção Católica está viva e viva no meio, mas que precisamos de apoio", disse à Lusa a presidente nacional da Acção Católica Rural (ACR), um dos movimentos integrantes da ACP.
Segundo esta militante, na ACP há 25 anos, os movimentos gostavam que a Igreja Católica os "compreendesse melhor".
"Um trabalho que seja muito centrado em si próprio e que seja muito interno, é muito fácil de ser aceite. Mas se criamos problemas e pomos as pessoas a mexer, nem sempre é bem aceite. É que nós pomos o dedo na ferida", explicou.
Explicação com a qual o coordenador nacional da Liga Operária Católica/Movimento de Trabalhadores Cristãos (LOC/MTC) também concorda.
"Alguns ficam muito satisfeitos porque vão à missa, mas só isso não chega. Outros há que são capazes de ir mais longe e são esses que se tornam incomodativos", justificou José Domingos Rodrigues.
"Se não houver uma abertura por parte da própria Igreja hierárquica sobre a importância destes espaços (os movimentos), naturalmente que as dificuldades são ainda maiores", acrescentou.
De acordo com Domingos Rodrigues, esta falta de interesse "já vem de há muito tempo", mas sente-se mais agora porque começa a haver falta de rejuvenescimento e de renovação entre os militantes.
Contactado pela Lusa, o historiador e professor universitário Pedro Pontes lembrou o importante papel que a ACP teve na evolução, não só da Igreja, como da sociedade portuguesa, na sua modernização e na sua abertura social e política.
Sublinhou, no entanto, que, como estrutura orgânica, a ACP "desapareceu" em 1974 e deixou de haver apenas uma organização para passarem a existir vários movimentos.
No actual contexto, Pedro Pontes entende que não é possível à Igreja Católica dar mais apoios porque passou a haver mais movimentos a reclamarem o mesmo e defende, por outro lado, que os movimentos nascidos da ACP procurem uma maior autonomia.
"Nesta passagem de paradigma, estes movimentos ganharam autonomia. Como é que podem construir futuro? Aprofundando essa autonomia, valorizando as suas responsabilidades e indo ao encontro das novas realidades em questão porque se fidelidade há, não é à forma, mas ao espírito", sustentou.
As comemorações dos 75 anos da ACP decorrem entre hoje e domingo, no Porto.




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