Diário: O meu filho tem gripe A

por Teresa Bizarro, Publicado em 07 de Novembro de 2009   
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Dia 1

 

Lembro-me de há uns meses ter pensado: "Quando a escola começar, vai ser o caos." As crianças, quando são saudáveis, vivem o dia a descobrir, a interagir. Quando são pré-adolescentes, como o meu filho, passam os intervalos a correr, a afirmarem-se numa troca de murros, a fazer as pazes com um abraço vigoroso, a dizer segredos sobre a miúda mais gira da turma e mais um rol de gestos que implicam proximidade.
A escola começou há quase dois meses e cheguei a pensar que afinal o vírus estava mais nos nossos jornais e na boca dos técnicos, do que, de facto, a saltar de pessoa em pessoa.
Até hoje.
O meu filho ligou-me ainda não eram 5 da tarde. Estava a chegar a casa. Sentia arrepios – "como se estivessem a picar-me com agulhas frias" – e dores no corpo – "mas isso deve ter sido da aula de judo que foi muito puxada hoje". Pedi-lhe para medir a temperatura. 37,7º. "Deita-te e descansa que eu já vou para aí", disse-lhe.
Confesso que saí do trabalho relativamente tranquila. Preocupada apenas porque ele não estava bem e estava sozinho. Ainda falámos outra vez pelo telefone durante os 20 minutos de caminho. Agora as palavras dele já eram cortadas por uma tosse seca. "Dói-me a cabeça", disse. Depois de desligar o telefone, comecei a somar os sintomas. Quando cheguei a casa, ele estava na cama, vestido tal como veio da rua e tapado até à cabeça. "Tenho muito frio!". Meço a temperatura outra vez: 38,2º e mais um sintoma: uma pieira fininha que o fazia queixar-se que lhe custava respirar. Ele tem asma, e sabendo que pertence a um grupo de risco, liguei para a Linha Saúde 24. Ainda esperámos uns 10 minutos, mas depois fomos atendidos como se não houvesse mais ninguém doente no país. Lembro-me que quase pedi desculpa por estar a ligar com sintomas tão recentes. Do outro lado da linha, a voz confortava-me a atitude com um "fez muito bem, mais vale prevenir". Falaram comigo, falaram com ele e somados os sintomas e o facto de ele ser asmático, aconselharam-nos ir para o Centro de Saúde. Passei pela farmácia antes de ir. Comprei máscaras e desinfectante (sinais desta nova realidade). Tinham-nos dito que o tempo de espera poderia chegar às 4 horas o que fez com que sermos atendidos duas horas depois de termos chegado tivesse parecido uma benesse. Análises, aerossóis, Tamiflu para a mãe, porque também tem história clínica de problemas respiratórios, máscaras e as recomendações com que vivemos agora: isolamento total para ele. Eu só devo sair o estritamente necessário. Viemos a conversar sobre a nova organização que temos de ter pelo menos até saber o resultado da análise. O quarto é o domínio dele – e do vírus – onde ele pode estar à vontade e sem máscara. Quando sai, desinfecta as mãos e põe a máscara. Quando eu entro, ponho a máscara.
Ele agora dorme. Está ainda com febre e não demorou a fechar os olhos assim que chegámos a casa. Vou agora telefonar a toda a gente com quem estivemos nos últimos dias a avisar para estarem alerta. Em surdina peço para que isto seja só mesmo uma febre e uma tosse, sem nome complicado. Mas até sabermos, vamos ter de viver com todas as regras do H1N1.
Não tenho pão em casa. Vai ser bonito amanhã ir à padaria de máscara posta!

Editora ionline.pt



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