O ministério que dá música
por Pedro Picoito, Publicado em 04 de Novembro de 2009
Com a tomada de posse dos Secretários de Estado, ficou completo o XVIII Governo Constitucional. Na Cultura, a ministra Gabriela Canavilhas terá a companhia do ex-director do IGESPAR Elísio Summavielle. O que é que devemos esperar da nova equipa do ministério?
Gabriela Canavilhas é pianista e ocupa há dez anos cargos de nomeação política, primeiro como assessora da Direcção Regional da Cultura dos Açores, depois como directora da Orquestra Metropolitana de Lisboa, por fim como responsável pela cultura no governo açoriano, lugar que trocou agora pelo Palácio da Ajuda. A ascensão no funcionalismo socialista não a impediu, ao mesmo tempo, de desenvolver uma intensa actividade como programadora musical em festivais e na rádio. Em suma, é uma gestora que pertence ao meio artístico. Encaixa bem no retrato de ministro de Sócrates, versão minoritária: vem para pacificar a corporação que tutela, no caso os artistas, mas também para mostrar obra. O PS continua a sonhar com uma reedição de Carrilho.
Gabriela Canavilhas presta-se ao papel. Um artigo que publicou recentemente mostra que lhe corre nas veias o incorrigível optimismo antropológico da esquerda e o correspondente gosto pela engenharia social. Para ela, a cultura é uma “alavanca para o desenvolvimento da sensibilidade, do saber e do conhecimento, condições estas indispensáveis para o avanço das mentalidades e, por consequência, para o avanço para uma sociedade melhor”. Ao ler esta prosa complicada, compreende-se o que Sócrates espera da sua autora: avançar Portugal. Gabriela Canavilhas pode partilhar com Adorno o amor à música, mas não a certeza de que depois de Auchswitz nunca mais se escreverá poesia.
Não é só de Adorno que ela discorda, aliás. As suas declarações logo após ser nomeada mostram que tem da pasta uma visão muito diferente do anterior titular. Em deliberado contraste com Pinto Ribeiro, que menorizou as limitações orçamentais do ministério e prometeu “fazer mais com menos” assim que chegou à Ajuda, Gabriela Canavilhas já disse que “é impossível fazer mais com menos” e que o Primeiro-Ministro “sabe que é necessário mais dinheiro”. Sócrates, de resto, reconheceu a falta de investimento na cultura aquando da derrota nas europeias. A grande prova do renascido amor do Governo será, portanto, o orçamento do ministério (211 milhões de euros em 2009, um crescimento de 0,4% em relação a 2008), não só porque Sócrates e a nova ministra subiram as expectativas, mas também porque a orientação política de ambos pressupõe o investimento público como motor de desenvolvimento. Pinto Ribeiro, pelo contrário, batia na tecla das “parcerias” com os privados para corrigir as fífias do Estado. Decididamente, Sócrates quer outra música.
No entanto, e apesar da menor visibilidade face às artes, talvez seja o património a garantir as maiores vaias ao Governo. A construção do novo Museu dos Coches em Lisboa tem sido alvo de muitas críticas, assim como a demolição do Museu de Arte Popular na mesma zona para dar lugar ao Museu Mar da Língua. O mediático Museu de Foz Côa ameaça ser um elefante branco e, a alguns meses da sua inauguração, ainda se discute para que vai servir. É aqui que entra Elísio Summavielle, funcionário de longa data do IGESPAR e dos serviços públicos que o antecederam. O seu conhecimento dos dossiers mais complicados dará a Gabriela Canavilhas a segurança que ninguém lhe reconhece nesta área decisiva. Ele será o barítono que tempera a acção e ela a soprano dos agudos impossíveis. Mas a batuta, como sempre, está nas mãos do maestro.
Professor universitário
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