Óbito

António Sérgio: O Bom Lobo

por Orlando Leite, Publicado em 02 de Novembro de 2009   
António Sérgio morreu ontem vítima de um ataque cardíaco. Com mais de 40 anos de carreira, actualmente dava voz ao "Viriato 25", na Rádio Radar. O último programa passa hoje, às 22h. Oiça a sua playlist aqui
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Cresci a ouvir rádio. Os sons que saíam daquela pequena caixa alimentavam a minha imaginação, mudando em definitivo o meu mundo, formação e cultura. Noites longas de estudante que se entrincheirava no quarto longe dos ouvidos dos pais para escutar o “Em Órbita” – pioneiro dos programas de autor de Jorge Gil, José Gil, Manuel Violante, Pedro Albergaria e João Manuel Alexandre, tendo Cândido Mota como primeira voz – ou a “Vigésima Terceira Hora” e mais tarde “O Rock Pode Esperar”, “Morrison Hotel” e o “Rotação”. Livros escolares e ondas hertzianas definiram a minha adolescência.
Comecei a ouvir o António Sérgio, pioneiro dos programas de autor, pela altura do ciclo preparatório com o “Rotação”. A sua inigualável voz e o imenso prazer que sentia em dar música às pessoas, conquistaram-me definitivamente com o saudoso “Som da Frente” nas tardes da Comercial de segunda a sexta, entre o “Vapor” de José La Féria e o “Rock em Stock” de Luís Filipe Barros – que marcaram a geração de 80 e a diferença de fazer rádio –. Durante o programa, para que muitos dos meus amigos se preparavam com a famosa cassete, dei por mim a ouvir os Japan, Wire, Bauhaus, Echo, Gun Club, Cure, Joy Division, Pere Ubu, entre muitos outros. Um detalhe que nunca me esqueço é o do tema de abertura do programa, já nos anos 90 e num horário nocturno: “Dreams Burn Down”, dos Ride.
Por estes tempos, dava os meus primeiros passos na escrita e na música feito DJ, mandando às urtigas um curso que os meus pais bem se esforçaram para eu terminar. Por coincidências profissionais, conheci o António que na altura também trabalhava na editora Rossil onde criaria a subsidiária “Rotação”, editando nomes como por exemplo os Xutos & Pontapés. A nossa relação, para além das questões profissionais, tornou-nos cúmplice na troca de informações passando ele a ser o farol por onde muitas vezes me orientei. Um dos episódios que mais recordo desses tempos – ainda há cerca de um ano e durante um concerto, voltámos a relembrá-lo – foi por alturas da minha primeira passagem pelo “Semanário” e pela minha tentativa, conseguida, de transformar o Shangri-lá num bar de música moderna em vez de gregos a partirem pratos no meio de ninfas em declínio ornamental. Fazendo a sua habitual ronda da Rua Nova do Carvalho – Jamaica, Tokyo e Shangri-lá – o António deu por ele a ouvir um disco que eu tinha acabadinho de importar, o primeiro álbum da Anne Clark. Depois das habituais negociações, a Anne lá viajou até à Sampaio e Pina regressando à minha posse tempo depois com a adição de uns quantos riscos merecedores das vezes que rodou. 
Voltando ao Velho Lobo... Mais do que um radialista, António Sérgio foi um educador de massas, dando autênticas lições de bom gosto musical em todos os seus programas, fosse no “Som da Frente”, “Rolls Rock”, “Lança Chamas”, “A Hora do Lobo” ou no actual “Viriato 25”. A sua paixão pela rádio, a necessidade quase catártica de trabalhar e de ensinar levou-o, em 1993, a ingressar numa rádio independente que marcaria outra geração: a XFM, na qual apresentava o programa “Grande Delta”. Com curto tempo de vida, a XFM encerrou as portas em 1997, regressando António Sérgio à Comercial para realizar outro mítico programa da nossa rádio, “A Hora do Lobo”. Mas as rádios tinham-se transformado em gigantescos gira-discos, com passagens de música obrigatórias, as chamadas “playlists”. Um programa de autor dedicado à música alternativa de todo o Mundo, tinha os dias contados e pela primeira vez o baluarte da resistência na divulgação de música alternativa passava a ser descartável. António Sérgio, pessoalmente ou em entrevistas, nunca escondeu a mágoa pela forma como foi tratado pelos novos senhores da Rádio Comercial. Felizmente para nós, os que amam e vivem a música, esses dias cinzentos na imaculada carreira de um radialista de excepção foram curtos. Passou a fazer parte da Radar dedicando-se a fazer aquilo que sempre fez: revelar talentos que não têm espaço nos alinhamentos óbvios das rádios mainstream, com o imperdível “Viriato 25”.
Mas a sua vida nem só de rádio se fez. Foi colaborador dos jornais “Blitz” e “Independente” e editor nas editoras discográficas Rossil e Nova e um dos produtores do álbum “Música Moderna” dos Corpo Diplomático. Os seus 40 anos de profissão foram justamente premiados com um Globo de Ouro, no primeiro ano em que esta iniciativa da SIC teve uma categoria para a rádio. A voz que muitos tentaram calar ao longo dos anos, o radialista da diferença, cerrou os lábios agora.
Será recordado por uma “imensa minoria” com saudade e paixão, sentimentos globais dos bons alunos para com um notável professor.
Nós, os que o ouvimos como conselheiro-mor, ganhámos mais uma estrela no céu de um éter que fez a nossa curiosidade tornar-se curso bem superior nesta vida cada vez mais mainstream.
Os que agora são jovens não fazem a mínima ideia do que perderam. Só lhes resta ouvir e consumir a pastilha das playlists e olharem para as nossas colecções de vinil e CD com os seus milhares de títulos com nomes estranhos e desconhecidos como um burro olha para um palácio.

Faltar-lhes-á sempre uma hora em companhia de um Lobo.

 



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