Entrevista
Constantino Sakellarides "Esta gripe é uma roleta russa"
Publicado em 31 de Outubro de 2009
É como uma roleta russa. Na maioria dos casos o H1N1 resulta numa gripe ligeira. Mas para uma pequena percentagem é fatal
Tem que se explicar da melhor forma possível. É evidente que seria impossível, e com pouco benefício para todos, que se fizesse o contrário. Tornaria os cuidados de saúde disfuncionais e impedia que respondessem a quem efectivamente precisa. Não há outro remédio senão explicar. Essa explicação, em algumas situações, é difícil. Mas não há outra forma de fazê-lo. A melhor forma de curar uma gripe é descansar, tomar medicação, fazer uma boa convalescença. Se houver febre, ela baixar e um dia ou dois depois aparecer outra vez, é sinal que pode haver uma complicação. Nos mais idosos ou doentes, que enfraquecem muito com a gripe, cria-se terreno para haver uma infecção bacteriana pós-gripal. Nos mais novos, o aparecimento súbito de dificuldades respiratórias também é sinal de alerta. E, portanto, o que se pode dizer é que se tem uma gripe normal deve resguardar-se, descansar e hidratar-se. Os que pertencem aos grupos de risco devem acordar com o médico o protocolo de actuação e os que têm sinais súbitos de dificuldade respiratória devem acorrer logo ao serviço de urgência.
O facto de dois dos casos de morte em Portugal terem passado antes pelo hospital é sinal de que foram mal atendidos?
O facto de terem estado lá e os médicos não terem encontrado nada, não quer dizer que dois dias depois não possa aparecer. Não se deve descansar. Os casos de pneumonia vírica aguda são muito rápidos e em dois dias a situação pode mudar. Não quer dizer que o diagnóstico há dois dias tenha sido errado, mas também não quer dizer que o diagnóstico se mantenha hoje. É controlar e acompanhar, não há outra solução.
Essa é uma das características deste vírus. Em poucas horas, pode afectar de forma grave uma pessoa jovem e até aí saudável?
Este vírus é muito bipolar. Na grande maioria das pessoas é muito suave. Mas depois há uma percentagem muito limitada de pessoas em que acontecem esses quadros súbitos e graves. Não é justo dizer que este vírus provoca isso, habitualmente não provoca. Mas pode acontecer. É uma roleta russa. Nos casos graves, 60% das pessoas têm outras doenças, mas há 40% que são saudáveis. Por isso, a pessoa tem que estar atenta aos sinais de agravamento.
Até por isso, porque não basta ir uma vez às urgências, vai haver - e já começou esta semana - uma grande pressão sobre os serviços de saúde. Como se pode fazer face a isso?
Temos que aceitar que os serviços de saúde não são elásticos, são diferenciados e não se podem substituir por recursos menos diferenciados. No Reino Unido criaram uma linha telefónica com recursos indiferenciados e isso foi muito polémico. Num tipo de serviços onde a exigência técnica é grande, não se podem contratar outras pessoas que não sabem, não se pode mandar vir médicos de outros locais, porque eles nesta altura são precisos em todo o lado. Os serviços podem organizar-se melhor. Sabemos que nas camas de cuidados intensivos dos hospitais, uma boa parte vai ser ocupada com a gripe, e claro que há muitas outras doenças que não são gripe. Vai haver uma grande pressão. É necessário gerir isto o melhor possível mas a tensão entre a oferta e a procura vai ser grande e há que tolerá-la. É evidente que será tanto maior quanto as pessoas com uma gripe simples forem todas aos serviços de saúde. Aí está a importância da informação, bom senso e sensibilidade para tomar decisões inteligentes. Se com uma febre formos todos a correr, vai deixar de haver lugar, haverá atrasos e os serviços deixam de conseguir atender os que precisam mesmo.
Mas também é um dilema para as pessoas, que estão preocupadas e muitas vezes não sabem avaliar se o que têm é grave ou não...
É por isso que é preciso transformar a informação em conhecimento. No mundo actual, não podemos evitar investir na nossa literacia em saúde. Ela é fundamental. E se há uma crítica aos governos é que investem muito pouco. E agora nota-se muito. Todos nós sofremos em consequência de sermos disfuncionais nestas alturas. É evidente que se tenho uma febre posso pensar em muitas coisas. Mas se não tenho qualquer outro sintoma, nem agravamento, tenho que actuar como de costume, não ir a correr ao médico. Com as crianças é mais complicado. A indicação que há é seguir, acompanhar atentamente e actuar de acordo com a evolução da situação. É como a mania do antibiótico, é um acesso inconveniente a cuidados de saúde. Se todas as crianças com febre levarem antibiótico, isso não é forma útil de pensar para ninguém.
Em relação ao Tamiflu, no início era usado até como profilaxia, para evitar contágio. Hoje não é administrado nem em todos os casos confirmados de H1N1. É apenas porque não chega? Se houvesse todo o Tamiflu do mundo seria adequado dar a toda a gente?
A aura Tamiflu acendeu-se durante a ameaça de gripe aviária, que era enorme. Se o vírus atravessasse a barreira da espécie, provocaria uma mortalidade de 60%. Quando se domesticasse não seria tão grande mas, mesmo assim, fazia lembrar a terrível catástrofe de 1918. A acumulação de Tamiflu numa reserva estratégica tinha a ver com isto. Mas agora, face a este vírus, teve que se rever a situação - a maioria dos casos não precisa de medicação nenhuma. Dar a toda a gente provoca resistências quando é mesmo preciso. Houve alteração na forma de olhar para o Tamiflu, que decorre da diferença dos vírus. Passou a ser recomendado só para pessoas que ou têm uma situação de risco ou um agravamento. Inicialmente era dado, porque os casos eram poucos e se estava numa fase de contenção, de atrasar a difusão do vírus, para ganhar tempo. Hoje já não. Deu-nos tempo para nos prepararmos.
Mas com essa selecção também se pode falar numa roleta russa? Se fosse dado Tamiflu aos casos que evoluem rapidamente para uma situação grave, o desfecho seria diferente?
O Tamiflu é para ser dado nas situações mais graves, quer numa gripe normal, quer numa gripe A. A questão é há muitos aspectos da doença que são uma roleta, não é só a gripe. Hoje estamos bem, amanhã podemos não estar. Não conhecemos o suficiente, não temos ainda uma capacidade de antecipação, uma medicina preditiva suficientemente desenvolvida para podermos adivinhar o que vai acontecer. Há muitas coisas que não sabemos prever. Uma delas é esta: a gripe. Mas há milhares de outras em que somos surpreendidos. A surpresa não é má prática, faz parte. O mesmo em relação às pandemias. Não sabemos nada sobre pandemias.
Os conhecimentos das pandemias anteriores não são suficientes par antecipar o que vai acontecer agora?
Os virologistas dizem que este vírus é a quarta geração do vírus da pandemia de 1918, que foi catastrófica. Não é tão agressivo, principalmente nas pessoas que contactaram com os anteriores, não é completamente desconhecido. Mas olhamos para ele e não sabe o que vai acontecer, o nosso desconhecimento da pandemia é grande porque a experiência é pequena. Houve só três num século. Temos que ter esta reserva. Parece que não ataca as pessoas mais idosas, parece que no Hemisfério Sul a incidência não foi muito elevada, mas o único remédio é prepararmo-nos para o pior cenário, mesmo que depois fiquemos satisfeitos de ele não acontecer. Não nos podemos dar ao luxo - seria uma imprevidência indesculpável - de assobiar para o lado e afirmar que o vírus não é muito forte. Quando sabemos pouco, a incerteza é grande. Temos que fazer cenários, incluindo os piores, e esperar que eles não aconteçam.
Que lições se podem tirar do Hemisfério Sul, onde o H1N1 já fez o seu caminho durante o Inverno?
Não há dados muito fiáveis. Mas a Austrália e Nova Zelândia confirmam que o vírus é bipolar: relativamente seguro numa grande faixa da população e muito grave numa pequena percentagem. A incidência nesses países não ultrapassou os 15%. Uma gripe sazonal razoável cobre 5%, uma má 10%. Uma pandemia com 15% não ombreia com nenhuma das três do século anterior. Mas 15% é 50% mais do que uma gripe sazonal mais pesada e desorganiza a sociedade. Se se repetir o que aconteceu na Austrália, ficamos satisfeitos. Mas não podemos saber.
Os Serviços de Atendimento da Gripe entretanto criados são a melhor solução para essa sobrecarga de casos?
À primeira vista, ter um serviço dedicado é sempre uma solução simpática. O que acontece é que nesta fase de indução, que é longa, concentrar recursos para uma gripe que não é muito intensa é uma gestão pouco inteligente dos recursos. Podem atender pessoas ou podem não atender, e são precisos noutros sítios. Quando termina a fase de indução e começa a fase de expansão, nessa altura poderia ser boa ideia, mas não se vão montar à pressa...
Já entrámos na fase de expansão?
Ainda não. Esta semana os casos aumentaram, a transmissão já é significativa, mas não se aproxima ainda do nível de pandemia. Falta o frio e a humidade.
Em relação às vacinas, as dúvidas são muitas, e dos próprios profissionais. É sinal de que a vacina não é segura ou de que os médicos estão mal informados?
As vacinas não têm todas o mesmo estatuto perante a população. O programa nacional de vacinação é uma história de sucesso: foi bem lançado, criou fortes alianças e um enorme consenso profissional. A vacina da gripe apareceu depois, não lhe deram grande importância, a gripe não tinha má fama. Tem um estatuto diferente. Não motiva o mesmo consenso e aceitação. Segundo aspecto: a difusão do conhecimento médico é ainda clássico e lento. Como é que se faz? Sai na literatura médica informação sobre os testes das vacinas, os seus componentes... É uma leitura muito especializada, lida por poucas pessoas - gente que lê e tece uma opinião que mais tarde vai veicular para as outras.
A maioria dos médicos não a lê...
Só pessoas desta área é que lêem. Os primeiros artigos apareceram há mês e meio. Estamos numa fase precoce de formação de opinião. Outra fonte são são as recomendações internacionais. E é importante saber que quem recomenda (a Organização Mundial de Saúde [OMS]) não licencia, e quem licencia (a americana FDA e a europeia EMEA) não recomenda. A maior parte dos profissionais de saúde não sabe como funcionam e tendem a pensar que são susceptíveis a influências políticas e sociais. Não é verdade. É muito difícil enganar aquela rapaziada toda. Não é a decisão pessoal de um director, ou sequer do seu staff. É de dezenas de consultores de vários países. É muito difícil imaginar - e eu trabalhei numa destas organizações, posso falar - que esse emaranhado de consultores técnicos estejam todos, ou a maioria, induzidos em erro por interesses económicos e políticos. Vivemos num mundo dinâmico que, de cinco em cinco minutos, cria informação com uma grande diversidade em termos de credibilidade: aparece uma senhora vestida de freira e diz que é médica, aparece uma senhora finlandesa que diz que foi ministra da saúde e que o mundo vai acabar; e isto depois surge no Youtube, passa por verdade e o mundo das redes sociais e internet invade o espaço público. Ora isto é uma luta quase desigual. Um rumor ou teoria da conspiração tem sempre origem num facto fidedigno, que depois é retirado de contexto.
E qual é o caso fidedigno?
Vou dar um exemplo que é dramático. No passado tentou associar-se a vacina da gripe com o síndroma de Guillian-Barré (doença neurológica). A base é muito débil. A gripe aparece associada a problemas infecciosos. Sabemos que num país de dez milhões de habitantes haverá sempre 100 a 200 casos de Guillian-Barré por ano. Há dois ou quatro por semana. Ao fim de algumas semanas de vacinação há pessoas que tiveram problemas de respiração, enfartes do miocárdio, insuficiência renal, etc... E quem são essas pessoas? Pessoas com doenças crónicas. E quem foram os vacinados? Pessoas com doenças crónicas. A associação é intuitiva. Vai haver muita gente a dizer que teve doenças por causa da vacina da gripe, quando não é assim. Era por terem mais risco que foram vacinados em primeiro lugar.
A agência americana não aceita vacinas com o adjuvante usado na Europa.
Procurámos e não encontrámos uma justificação, só que, por enquanto, não utilizam essas vacinas. Qual é a explicação razoável? Que os técnicos interpretem a evidência de maneira diferente? Não parece razoável. A questão é que as agências não só olham para as evidências, como também para a aceitação social dessa evidência. Ora, nos EUA aconteceu um grande bruá na altura da guerra do Golfo com a história mal contada de milhares de soldados que foram vacinados contra o antraz e que desenvolveram doenças auto-imunes. A OMS provou que isso não aconteceu. A OMS resolve o problema da evidência - não há razões para supor um risco do adjuvante -, mas não resolve o clima social de um país, e isso também conta. É a única explicação razoável.
A aceitação das vacinas é mais rápida. Não levanta questões de segurança? Nem tudo é testado...
A EMEA não disse 'vamos acelerar isto' porque foram pressionados, mas porque os seus regulamentos prevêem-se uma via rápida. A pergunta que se fez ao corpo técnico é "o risco de nos sujeitarmos a complicações imprevistas é ou não superior ao risco de não haver vacina para a gripe?" Com aqueles ensaios, com a experiência que se tem, tudo pesado, a conclusão foi que o risco de complicações era inferior às vantagens de a utilizar já. E não estamos a falar de dois contra um, a evidência é claramente favorável ao uso da vacina. A vantagem de ter uma vacina é muito grande. Não há uma conclusão absoluta sobre a segurança, é uma conclusão depois de analisados os riscos.
No fundo o que está a dizer é que a probabilidade de apanhar gripe e ter complicações é maior do que ter complicações por causa da vacina?
Exactamente. Se o problema for uma constipação e houver uma vacina que me vai dar problemas, é óbvio que não a vou tomar. Mas não é o caso. Aqui o benefício supera em muito o risco.
O objectivo da vacinação é cortar o caminho ao vírus. As escolas começam a ser os grandes focos da doença. Por que razão se opta por não vacinar as crianças e por vacinar funcionários que em muitos casos - como os deputados - nem querem ser vacinados?
Depende do que se considere pessoas indispensáveis. A classe política tem má fama, mas eles têm de tomar decisões importantes. Quem são os indispensáveis? Isso presta-se a uma discussão séria e muitas anedotas. E essa não é a questão. A questão importante é que temos que vacinar alguns e as autoridades de saúde não podem chegar ao pé do Presidente da República e dizer que vai ser vacinado este ou aquele. Têm que perguntar. Não podem vacinar o governo e não os deputados. São os próprios órgãos que têm que definir. Há fronteiras que são discutíveis, mas o princípio é este: vacinar os que precisam de ser protegidos para que o país funcione e vacinar os mais prejudicados pela doença.
Os mais susceptíveis de ser prejudicados pela doença são também os mais susceptíveis de ter complicações com vacina? Por exemplo as grávidas? A Suíça acabou de desaconselhar a vacinação.
Não há evidência científica que prove isso. Não conheço os motivos suíços.
Faz sentido vacinar alguns dos grupos depois do Inverno?
Não há razão para não vacinar. Até porque quando aparece um novos vírus pandémico, inicia um novo ciclo da gripe sazonal. Nos próximos anos, vai haver mais gripe sazonal. Não é vacina deitada fora, este vírus vai andar por aí bastante tempo e vai dominar os outros. Temos que lhe dar luta durante algum tempo. Vai ser o vírus predominante já no próximo inverno.
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Artigo: Constantino Sakellarides "Esta gripe é uma roleta russa"
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