Editorial
Ana Jorge: a vacina contra a histeria
por André Macedo, Publicado em 30 de Outubro de 2009
Morreu uma criança. A ministra da Saúde reuniu os factos. Não encobriu, explicou com simplicidade. Deu segurança, o melhor remédio
Num dia deprimente para o país, com mais arguidos e suspeitos envolvidos na sucata do costume, a ministra Ana Jorge mostrou que nem tudo tem remédio, mas que ser competente é uma grande ajuda nos momentos de medo e de perplexidade. No dia a seguir à morte da criança de dez anos infectada com gripe A, a ministra da Saúde convocou uma conferência de imprensa para responder às dúvidas que aterrorizam os pais e inquietam milhões de pessoas. Respondeu a quase tudo. E mostrou a sorte que é ter uma médica à frente do Ministério da Saúde em plena pandemia.
Sorte porque sabe do que fala. Sorte porque conhece os corredores dos hospitais e os vírus. Sorte porque não desvaloriza as interrogações e os pavores das pessoas com os tiques de superioridade que afectam demasiados especialistas em saúde pública que já ocuparam o mesmo lugar no Ministério da Saúde. Finalmente, sorte porque em momento algum permitiu que se instalasse a dúvida: estaria a ministra a falar como burocrata preocupada em esconder os erros médicos e as insuficiências do Serviço Nacional de Saúde ou estaria a falar como médica treinada em assumir as mais dolorosas notícias? Venceu a médica, perdeu a política.
A notícia de ontem era mesmo má: na véspera morrera uma criança de dez anos naquilo que poderia revelar um erro de diagnóstico no meio de uma situação a roçar o descontrolo. Em três dias, 142 escolas assinalaram focos de gripe A. Nem sequer a vacinação está a correr como deveria. A desconfiança vem do interior da própria classe médica, a começar pelo politizado bastonário, que deixou no ar dúvidas sobre a vacinação capazes de assustar mesmo os mais informados. Felizmente, Ana Jorge placou sem hesitações o vírus da desconfiança: a ministra também vai tomar a vacina. Placou o vírus da dúvida: a criança morreu porque tinha um problema no coração que a vulnerabilizou ainda mais. Placou o vírus da histeria: há uma equipa que acompanha tudo o que está a acontecer e tira daí todas as consequências clínicas possíveis.
Há, no entanto, um grau de protecção que Ana Jorge não consegue oferecer: o de que o Estado tem os meios necessários para evitar todas as mortes. Não tem. Apesar de ser uma evidência que o Ministério da Saúde gere recursos humanos, físicos e financeiros finitos, custa levar à letra esta afirmação. O mundo desen- volvido vive no mito da segurança e da perfeição. Quando cai uma ponte ou morre uma criança, despertamos em sobressalto desta ilusão colectiva.
A gripe H1N1 é exactamente isso: a prova de que não há sistema de saúde no mundo capaz de responder com 100% de eficácia a uma pandemia. Não há vacinas prontas a tempo, não há camas para internar todos os doentes, não haverá Tamiflu para distribuição universal, não há sequer coisas prosaicas, como ventiladores suficientes, se o número de pessoas internadas disparar. Ana Jorge sabe que gerir a saúde de um país é fazer escolhas difíceis (quem vacinar primeiro?) e justificá- -las com transparência. Não promete salvar todos, mas também não será o salve-se quem puder. As escolhas públicas são assim: as pessoas não são sucata, merecem respostas claras - o único remédio eficaz contra a ignorância.
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Artigo: Ana Jorge: a vacina contra a histeria
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