Ela disse que também tinha um melhor amigo. Era o marido. Não era nenhuma das amigas, nenhum dos amigos de infância que ainda duravam; rigorosamente ninguém a não ser o homem com quem tinha casado. Desde sempre procurou quem a redimisse das suas próprias limitações, as muitas que sabia que existiam, alguém que reunisse uma multiplicidade de estatutos diferentes: amigo, homem, amante, pai dos filhos, confidente. Na opinião dela casaram-se por isso mesmo. Ambos queriam uma "amizade completa", que também incluísse o que não costuma vir com a "amizade comum": conjugalidade, sexo, amor, aperfeiçoamento, um compromisso total do "eu". Por estranho que pareça, a minha amiga era aquilo a que costumamos chamar "uma pessoa feliz".
Ainda respondi que não podia ser, que ela talvez estivesse a chamar outra coisa à amizade e ao casamento, que tanto quanto sei o casamento pressupõe, como escreveu Agustina Bessa Luís, uma contínua operação de "desfocagem" que evite a excessiva proximidade entre marido e mulher.
Além de que, se o casamento requer o sexo, a amizade dispensa-o ou não o aconselha. Não chegámos a acordo.
Estou falar disto porque comecei há pouco tempo um blogue sobre a amizade (setesombras.blogspot.com) e, como o leitor compreenderá, tudo o que as pessoas dizem sobre o tema me mantém interessado. Em geral, não dizem. Sobre o amor, o sexo ou a família, ninguém alimenta silêncios. Fizemos investigação de campo, nem sempre por razões felizes, e julgamos saber todas as regras. A amizade não é assim: é talvez o parente pobre de toda a nossa também pobre educação sentimental. Mesmo numa era que abusa da amizade devido às redes sociais, sabemos muito pouco sobre o que a amizade significa. Na verdade, sabemos muito pouco sobre o que queremos.
Ao ouvir a minha amiga defender uma coisa que se tornou banal nos nossos dias, essa busca de uma relação completa, de perfeita segurança, que nem sabemos bem o que é (amizade, amor, casamento, família, ou tudo isto numa única embalagem), pensei que deve haver um motivo plausível, uma explicação cultural, para que ninguém mais se entenda sobre o sentido da amizade; devemos ter passado por qualquer transformação radical na história dos últimos séculos para começarmos a chamar à amizade aquilo que ela nunca foi ou não pode ser. Terá sido o romantismo que ao idealizar o amor sugou e renunciou a qualquer outra experiência distinta? Terá sido o predomínio da cultura visual que transformou o sexo na primeira e últimas das nossas obsessões banalizadas e a que nem as amizades por vezes escapam? Talvez. Mas deve haver um motivo sério para isso. Porque não se compreendem todo este silêncio, toda esta indefinição.
Jurista




Rating: 0.0
Actividade em ionline