Cartas marcadas no Palácio
Publicado em 27 de Outubro de 2009
O primeiro acto de um teatro de sombras chinesas estreou-se ontem no Palácio da Ajuda e pode estar em cena até Janeiro de 2011, data prevista para as próximas eleições presidenciais. Pouco do que foi dito nos discursos da tomada de posse do novo governo corresponde à exacta realidade das coisas. Cavaco Silva declarou conhecer bem as dificuldades que um Presidente da República pode pôr a um governo. Não estava só a queixar-se das agruras que sofreu no passado enquanto primeiro-ministro às mãos de Mário Soares, mas sobretudo a falar do
presente e do futuro das relações institucionais entre Belém e São Bento, depois do "caso das escutas". Por seu lado, José Sócrates falou de um novo começo e de uma nova legitimidade. Como se a vontade manifestada pelos portugueses nas legislativas lhe tivesse atribuído a maioria absoluta - e não a vitória relativa que de facto aconteceu. "Minoria" ou "minoritário" não constam aliás das 1832 palavras proferidas pelo primeiro-ministro, mas foram repetidas quatro vezes nas 1640 do discurso do Presidente da República. Cavaco Silva e José Sócrates parecem hoje dois jogadores obrigados pelas circunstâncias a serem parceiros numa partida de bridge. Porque na verdade se mantêm adversários, vão continuar a fazer bluff um contra o outro - e ambos se arriscam a perder no final do jogo.
Editor do Zoom
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