Política
Governo Sócrates II: A estabilidade sou eu
Publicado em 27 de Outubro de 2009
Sócrates já não fala em "romper atavismos e bloqueios". É o tempo do Estado, da luta pela igualdade e do combate à crise. Cavaco promete cooperação
O Presidente da República prometeu recuperar-se enquanto protagonista da "cooperação estratégica", mas Sócrates - já se sabia - contenta-se com a "cooperação institucional". A posse do governo serviu ao primeiro-ministro para treinar a mensagem que, daqui até às próximas eleições, vai determinar o discurso do governo minoritário: em primeiro lugar, não existe maioria absoluta, mas a estabilidade sou eu; em segundo, discute-se com os outros, mas governa-se com o programa do PS.
Foi evidente o esforço de Sócrates por manter o tom de alguma auto-suficiência, apesar de já não ter uma maioria no Parlamento para a sustentar. Mas, ao contrário do que tinha feito há quatro anos, Sócrates fez evaporar da tomada de posse a ideia de ruptura com "atavismos e bloqueios". Agora é economia, economia, economia, e concentração na crise e no desemprego.
Enquanto Cavaco Silva fez vários alertas para o novo contexto de governo minoritário - "É claro para todos que, neste quadro político, o diálogo e a concertação na procura dos consensos possíveis ganham uma relevância acrescida" - José Sócrates esforçou-se por evidenciar a sua plena legitimidade para governar com o programa do PS. Antes pelo contrário, os partidos da oposição são agora, no entender do primeiro-ministro reconduzido, os responsáveis por não deitar o governo abaixo e os obrigados a contribuir para dar respostas à crise: "O quadro político desta legislatura impõe a todas as instituições e a todos os agentes políticos um elevado sentido de responsabilidade. Responsabilidade, desde logo, com a estabilidade política. Estabilidade que é um valor político essencial para atrair investimento, aumentar a confiança, estabelecer acordos sociais, tomar decisões de fundo e responder com eficácia à crise económica."
E combater a crise é a primeira prioridade do novo governo: "A recuperação da nossa economia será o objectivo central da governação. É no crescimento económico e no emprego que concentraremos o essencial das nossas energias." O primeiro-ministro chamou aqui o Estado, que "tem um papel determinante", "apoiando o investimento privado e as empresas. Defendendo o emprego e incentivando a contratação. Promovendo o investimento público que, ao mesmo tempo, modernize o país, dê oportunidades às empresas e estimule a criação de emprego". A segunda prioridade é "a modernização da economia e da sociedade, valorizando o conhecimento, a cultura, a tecnologia, a inovação" e a terceira "é a justiça social": "É desenvolver as políticas sociais, é qualificar os serviços públicos, é reduzir as desigualdades na sociedade portuguesa." Seguiu--se uma profissão de fé no Estado social: "É por isso que defendemos uma Segurança Social pública e forte; um Serviço Nacional de Saúde moderno e qualificado; um sistema público de ensino à altura dos novos tempos e das novas exigências da educação".
Cavaco Silva, que sabe "por experiência própria o que significa liderar um governo minoritário", pediu a Sócrates "compromissos com as outras forças políticas". O governo deve "ouvir os agentes sociais e as organizações da sociedade civil" e "estar particularmente atento aos problemas reais que as famílias enfrentam no seu dia-a-dia". Mas também falou da "responsabilidade" dos outros: "A uma cultura de negociação deve corresponder uma cultura de responsabilidade por parte das diversas forças políticas e dos agentes económicos e sociais."
As políticas sociais são também as prioridades para o Presidente da República: "Nos tempos difíceis que o país atravessa, exige-se uma política social activa e um esforço acrescido de todos no apoio aos nossos concidadãos mais expostos à adversidade." Até porque, "com o nível de desemprego que o país conhece, os portugueses compreenderiam mal que os agentes políticos não concentrassem a sua atenção na resolução dos problemas concretos das pessoas."
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