Cinco horas depois do padre Fernando Guerra ter entrado no Tribunal de Boticas, alguns populares ainda aguardam junto ao edifício pelo fim do interrogatório que definirá as medidas de coação a aplicar ao sacerdote suspeito da posse ilegal de armas.
Fernando Guerra foi detido domingo em plena sacristia da igreja de Covas do Barroso, numa operação que culminou uma investigação do Núcleo de Investigação Criminal de Chaves que já decorria há alguns meses.
Conjuntamente com o padre, foram detidos mais três homens, mas só dois deles é que estão a ser ouvidos no Tribunal. Um terceiro homem não compareceu por motivos de doença.
Apesar da chegada da noite e do frio que se faz sentir na vila de Boticas, alguns populares mantêm-se em frente ao tribunal e as conversas continuam a girar à volta da detenção do padre.
No pátio do Tribunal de Boticas até de José Saramago se falou, com um dos populares, João Barreto, a concordar com a opinião do escritor sobre a Igreja.
João Barreto foi um dos que mais gritou quando o sacerdote entrou no edifício do tribunal.
“Chamei-lhe pistoleiro? E não é? Já viram bem as armas que a GNR lhe apreendeu”, salientou aos jornalistas.
Este popular, residente em Couto de Dornelas, uma antiga paróquia de Fernando Guerra, reconheceu que o sacerdote até “celebrava bem a missa”, mas lamentou que “só pensava em dinheiro”.
O presidente da Junta de Dornelas, Xavier Barreto, afirmou que a detenção do padre apenas veio dar razão às 300 pessoas da sua freguesia que há quatro anos subscreveram um abaixo-assinado a solicitar ao Bispo de Vila Real a substituição de Fernando Guerra.
“O senhor Bispo meteu o abaixo-assinado na gaveta e só recentemente é que um outro padre veio celebrar a missa em Couto de Dornelas. Se calhar está na altura de o senhor Bispo começar a olhar mais para a terra do que para o céu”, salientou.
O autarca citou ainda o ditado que diz: “a voz do povo é a voz de Deus”.
Por sua vez, Adelaide Fernandes fez questão de salientar as qualidades do sacerdote.
“É um bom homem e um bom padre. Vou sempre à missa dele. É o melhor padre que poderia haver por aqui”, salientou.
Quanto às armas que lhe apreenderam, Adelaide Fernandes diz que “eram dele, não as roubou a ninguém nem nunca disparou contra ninguém”.
A maior parte dos populares prefere não se pronunciar sobre o padre. Apenas aguardaram no tribunal para ver o sacerdote, uns aproveitaram até para tirar fotos, e saber a medida de coação que o tribunal lhe aplicou.
Entre esses mesmos populares diz-se que há muito se falava na ligação do sacerdote às armas, mas poucos têm a coragem de falar abertamente sobre o assunto.




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