Trabalho
Constâncio avisa. Aumentos salariais têm tecto de 1,5%
Publicado em 24 de Outubro de 2009
O líder do banco central diz que sem realismo salarial o desemprego aumenta. E ainda é cedo para retirar os estímulos à economia
Vítor Constâncio, o governador do Banco de Portugal, apelou ontem à moderação salarial em 2010, defendendo que as correcções salariais não deverão ultrapassar 1,5%. "Os crescimentos salariais nominais previstos para a zona euro são de 1,5%, portanto tudo o que for um crescimento em torno desse valor são evoluções dentro dos limites do razoável", disse Constâncio ontem no III Congresso Nacional dos Economistas. "Se não houver esse realismo salarial, haverá mais desemprego." O recado dirigiu-se ao sector público e privado.
Estes valores entram em conflito com as exigências das confederações sindicais da administração pública, que, como o i noticiou, ponderam exigir ao governo aumentos entre os 3% e os 4,5% nos salários pagos pelo Estado, que servem de referência ao sector privado.
Sobre as exigências de aumentos acima dos 1,5%, Constâncio avisou que as partes envolvidas nas negociações "terão de ser lógicas no que defendem". "Vivemos uma situação em que houve uma inversão de paradigma. A política monetária controla a inflação e a política salarial controla o emprego e o desemprego. É disso que temos de ter consciência", sublinhou. O apelo do governador do Banco de Portugal serve também para as associações patronais, que, na última semana, defenderam uma forte moderação salarial em 2010.
O governador do Banco de Portugal aproveitou para deixar outros recados: "A crise não acabou", alertou, apontando os riscos de as economias mundiais poderem enfrentar o cenário de evolução em W (queda, subida, queda, etc.). "Existe ainda uma grande incerteza sobre a solidez da recuperação que se iniciou", disse, criticando quem, nos últimos meses - com base na recuperação das bolsas -, tem clamado pelo fim da crise.
"Um dos grandes riscos que pesam sobre a economia mundial", avisou, "é o timing da retirada das medidas de apoio. Se retiramos muito cedo, comprometemos a retoma, como ocorreu no Japão em 1996", lembrou Constâncio. "Qualquer erro no timing da retirada dos estímulos à economia pode levar a um novo episódio recessivo e à evolução em W que alguns temem", garantiu o governador. Constâncio contestou ainda a ideia, "cada vez mais recorrente", de que as injecções de milhares de milhões de euros na economia pelos estados e pelos bancos centrais provocam um cenário de alta inflação. "Não há verdadeiramente riscos de inflação no horizonte próximo", garantiu, explicando que, apesar dos vários milhões injectados na economia desde 2007, "a própria crise, e os bancos, não têm deixado que a liquidez chegue à economia real."
Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.
Artigo: Constâncio avisa. Aumentos salariais têm tecto de 1,5%
Actividade em ionline