O português Nuno Ribeiro, vencedor da Volta a Portugal em bicicleta em 2003 e 2009, que teve um controlo antidoping positivo, disse hoje sentir-se "enganado" e disponível para colaborar com a investigação, imputando responsabilidade ao médico.
"Sinto-me enganado, primeiro que tudo, e, consoante vão passando os dias e o processo vai correndo, a principal sensação que tenho é sentir-me enganado", assumiu hoje o corredor da extinta equipa Liberty Seguros, em conferência de imprensa.
Terça-feira, a Federação Portuguesa de Ciclismo (FPC) revelou que a contra-análise de Nuno Ribeiro confirmou o resultado do exame à primeira amostra, que tinha detectado eritropoietina de acção prolongada (EPO CERA), tal como aos espanhóis Hector Guerra e Isidro Nozal, então seus companheiros de equipa, num controlo de surpresa realizado a 03 de Agosto, dois dias antes do arranque da Volta a Portugal.
Assumindo a vontade de que "as coisas fiquem esclarecidas", Nuno Ribeiro espera "criar revolução no ciclismo e mudar a mentalidade dos ciclistas e das pessoas que estão à volta do ciclismo".
"Já estou a colaborar com toda a gente, estou disposto a colaborar com a justiça, com as pessoas que estão encarregues pelo processo na Federação", explicou o corredor, disponibilizando-se para "colaborar em lutas contra o doping" junto dos jovens, para que este caso não se repita.
Apenas acompanhado pela sua advogada, Marina Albino, o corredor apontou responsabilidades ao médico que colaborava com a equipa, o colombiano Alberto Beltrán, destacando a relação de confiança com os seus superiores, admitindo que os responsáveis da equipa soubessem da utilização destas substâncias.
"Este médico estava aqui há três anos, nunca tínhamos tido problemas. Tivemos imensos controlos. Eu pessoalmente fiz muitos controlos, a equipa fez muitos controlos, nunca houve problema. Não havia motivo para desconfirar, mas aconteceu o que aconteceu e a pessoa mais tramada sou eu, porque estou sob processo disciplinar, vou ser castigado e não sei o que vem mais", afirmou.
Nuno Ribeiro acrescentou que "passava tudo por ele [Beltrán], em termos médicos", e disse que ficou "surpreendido" quando recebeu a primeira notificação da análise positiva.
"Até esse dia, tinha trabalhado dois ou três anos com essas pessoas e nunca tinha tido problema nenhum, continuei a confiar nas pessoas e tinha de confiar neles. A minha maneira de estar no ciclismo é esta, confio nas pessoas, sou ciclista, sou pago para andar de bicicleta e, de resto, as pessoas têm as suas responsabilidades. Se tínhamos um médico na equipa ele tinha a responsabilidade de fazer o melhor para nós", frisou.
Sem excluir mover uma acção judicial contra o clínico espanhol, Nuno Ribeiro disse pretender "resolver da melhor forma possível a parte desportiva", para depois ponderar essa possibilidade.
Reiterando sentir-se "enganado", o corredor admitiu ter tentado "uma vez ou duas", sem sucesso, o contacto com Beltrán.
"Não gostava de acabar a carreira desta maneira. Tenciono correr, nem que seja, mais um ano para dignificar o meu nome e para mostrar que realmente não era por aquilo [doping] que eu andava. Agora sei que, à partida, vai ser um castigo bastante longo mas vou tentar treinar e estar no meu melhor para quando voltar, estar na máxima força", sustentou.
Desde que foi notificado, Nuno Ribeiro disse já ter falado com o "manager" da Liberty Seguros, Vítor Paulo Branco, mas nunca com o director desportivo, Américo Silva.
Nuno Ribeiro negou ainda "ter sentido qualquer reacção estranha no organismo" durante a Volta a Portugal, justificando a sua prestação com "uma boa preparação".
"Eu estava bem, sentia-me bem. Fiz uma boa preparação para estar bem na Volta a Portugal, consegui chegar à vitória, que agora não é vitória, mas só 'a posteriori' é que veio este resultado e fiquei bastante triste por isso", detalhou.
Marina Albino garantiu que o corredor não é arguido em qualquer processo judicial, enaltecendo a vontade de colaborar com as entidades responsáveis pela investigação, para uma possível atenuação extraordinária de pena.
A causídica acrescentou que Nuno Ribeiro vai devolver a medalha de mérito da Câmara Municipal de Valongo, que lhe foi atribuída após o triunfo na última Volta a Portugal.




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