Crime
Ladrões inventam novas formas de enganar alarmes
por Ana Rita Guerra, Publicado em 21 de Outubro de 2009
Sacos de alumínio, alicates, saca-alarmes: vale tudo para os furtos no retalho. Há até canais no YouTube que ensinam a fazê-los
Ao meio-dia em ponto um grupo de cinco jovens entra na loja da Ericeira Surf Shop da Parede. Mexem e remexem nas prateleiras, experimentam bonés e admiram os óculos de sol dentro das vitrines. Acabam por comprar uma ou duas peças de roupa Billabong.
Meia hora depois, o gerente da loja descobre que desapareceram algumas camisolas. Revê o filme das câmaras de vigilância e descobre que o grupo roubou as peças usando sacos forrados a alumínio, que anula os alarmes. De imediato faz um screenshot dos larápios e envia-o para as outras lojas, para que estejam atentas. Com toda a razão: às duas da tarde, o mesmo grupo é apanhado a roubar T-shirts na loja da Ericeira do Colombo. Ainda que o método possa levantar questões, já que a Comissão Nacional de Protecção de Dados (CNPD) não permite o uso de filmagens de clientes ou funcionários nas lojas, a Ericeira Surf Shop consegue assim evitar danos maiores. Eduardo Moreira, director de logística e operações do Despomar (grupo que detém a cadeia), garante que muitos ladrões levam alicates e até saca--alarmes, facilmente adquiridos na internet e iguais aos que os operadores de caixa usam.
"O à-vontade nos roubos é cada vez maior", testemunha o responsável, reportando-se à descontracção com que muitos jovens furtam. Para aprender novas técnicas, basta procurar na net, em canais como o YouTube ou no site yomango.net.
Este tipo de episódios é a maior causa da quebra desconhecida no retalho - ou seja, o desaparecimento ou não facturação de produtos sem que haja explicação para isso. Além do furto, podem acontecer erros nos preços das etiquetas, na admissão de mercadorias, na factura de fornecedor... O facto é que esta quebra atingiu 177 milhões de euros só em 2008.
Os números são do 2.o Barómetro Nacional da Quebra Desconhecida no Retalho, apresentado ontem pela consultora PremiValor e pela Gateway, que patrocinou o estudo. "A quebra desconhecida representou em média 1,16% do volume total de vendas das empresas ", explicou Telmo Vieira, partner da PremiValor, ressalvando que o estudo ainda não abrange a totalidade das empresas e há um coeficiente de variação a ter em conta. Mesmo assim, as conclusões não deixam margem para dúvidas: 1,16% de quebra numa empresa que factura 50 milhões de euros por ano daria para empregar mais 34 colaboradores a receberem 800 euros por mês.
"Há pessoas que entram nas nossas lojas a meio da tarde e vêm lanchar de graça", frisa Vítor Salvado, director de segurança de informação do grupo Jerónimo Martins, que detém o Pingo Doce. O problema é que as imagens do cliente a devorar um croissant não podem ser usadas contra ele, já que a CNPD só autoriza câmaras apontadas para as saídas e entradas e não para as caras das pessoas. Pior ainda, as empresas têm de liquidar o IVA e contabilizar em sede de IRC vendas não efectuadas. Porquê? Fazer prova das quebras desconhecidas é quase impossível - exactamente por serem desconhecidas.
A boa notícia é que a Direcção-Geral de Contribuições e Impostos (DGCI) vai permitir em breve a dedução caso a caso, desde que sejam cumpridos vários requisitos de protecção. A medida entra em vigor depois de sair a portaria que tornará a DGCI como única entidade certificadora do software que vai permitir que a quebra desconhecida não seja alvo de impostos, algo que acontecerá dentro de um mês e meio.
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