Primeiro plano
Nós
por João Rodrigues, Publicado em 19 de Outubro de 2009
O que liga os vizinhos de Alvalade, que transformaram uma lixeira num jardim, com a recente Nobel da Economia? Mais do que se possa pensar
No bairro de Alvalade, em Lisboa, um grupo de vizinhos transformou um logradouro público, onde existia uma lixeira, num jardim. Fiquei a saber deste sucesso da acção colectiva através de uma interessante reportagem do i na mesma semana em que foi anunciada a atribuição do Prémio Nobel da Economia a Elinor Ostrom, a primeira mulher a receber este galardão.
Pode dizer-se, sem grande exagero, que Ostrom dedicou uma vida inteira a mostrar que as motivações humanas não se resumem ao egoísmo materialista dos que acham que o que é de todos não é de ninguém. Os mesmos que julgam que os recursos só podem ser geridos com a espada do soberano e com os muros da propriedade privada, as duas soluções íntimas de um sistema que não incentiva o exercício da imaginação institucional.
Na realidade, as comunidades conseguem, em circunstâncias que Ostrom ajudou a clarificar, descobrir sistemas de regras variados, formais e/ou informais, que permitem evitar a predação por alguns dos recursos que são de todos ou a tentação de ficar discretamente à janela a ver os vizinhos a plantarem o tal jardim de que no fim todos irão beneficiar. Da gestão bem sucedida de baldios ao software livre em permanente evolução graças à contribuição generosa de tantos, passando pela autogestão de empresas, são muitas as potencialidades do trabalho cooperativo.
O debate democrático e o envolvimento na tomada de decisão sobre o uso dos recursos ou a existência de níveis de desigualdade socioeconómica reduzidos são alguns dos ingredientes do compromisso duradouro entre indivíduos, da confiança, que permite conjugar a primeira pessoa do plural na economia. Eu faço a minha parte porque nós estamos juntos num projecto marcado pela reciprocidade. A gestão bem sucedida da propriedade comum depende da confiança e pode por sua vez ajudar a cultivá-la, superando assim a tragédia dos comuns, esse abuso desencadeado pelo somatório dos egoísmos desconfiados.
Numa época em que o conhecimento, a nova riqueza comum, é alvo dos apetites capitalistas de quem só entende a linguagem estreita dos muros privados, que dificultam a cooperação ancorada em motivações que vão muito para além do egoísmo - a chamada tragédia dos anticomuns -, o trabalho realista de Ostrom é de uma grande utilidade. Sobretudo para os cientistas sociais que apostam na diversidade institucional, a promover por políticas públicas inteligentes, como solução para as crises de uma economia onde as pessoas têm muito poucas oportunidades genuínas de dizer uma palavra importante: nós.
Economista e co-autor do blogue Ladrões de Bicicletas
Escreve à segunda-feira
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