Livros
Saramago. As obsessões de um génio - vídeo
por Luís Leal Miranda, Publicado em 19 de Outubro de 2009
Na véspera de "Caim" chegar às lojas, Saramago reacendeu a polémica com a Igreja: "a Bíblia é um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana" Viagem ao universo do Nobel português
O único prémio Nobel de Literatura em língua portuguesa edita hoje "Caim". Ao 19.o romance, José Saramago volta a pegar num momento em particular da história (como em "Memorial do Convento" ou "História do Cerco de Lisboa") e numa passagem da Bíblia (como em "O Evangelho Segundo Jesus Cristo"). Nas vezes anteriores em que navegou por esses temas conheceu a fama e a polémica. Com "Caim" como pano de fundo, recordamos as obsessões de José Saramago, o homem por trás dos romances.
Comunismo
"Marx nunca teve tanta razão como hoje", revista "Pública", Junho de 2008
E José Saramago é tão comunista hoje como nos tempos em se tornou militante do PCP. As razões de Marx, que enuncia na entrevista acima citada para explicar e contextualizar a crise financeira mundial, utilizou-as a vida inteira. Membro do partido desde a década de 60, é descrito pelo jornal "Avante!", numa nota posterior à atribuição do Nobel da Literatura, como um homem com "uma vida indissoluvelmente ligada à defesa da liberdade, da democracia, das grandes causas sociais e políticas dos trabalhadores na luta pela sua emancipação". Ao jornal "Folha de São Paulo", Saramago descreveu o seu comunismo como uma questão "hormonal", uma espécie de convicção inscrita no seu código genético da qual não se conseguiria livrar - mesmo que quisesse. "Ser comunista é um estado de espírito", concluiu. Em entrevista à revista "Ler", em Junho do ano passado, o escritor mostrou alguma descrença quanto ao modelo comunista que falhou na União Soviética.
Ateísmo
"O planeta seria muito mais pacífico se fôssemos todos ateus", blogue "O Caderno de Saramago", Fevereiro de 2008
A Bíblia? "Um desastre", um livro repleto de "maus conselhos, incestos e matanças". E a Igreja Católica? "O sonho da Igreja é transformar todos em eunucos". Saramago não se esforça por esconder o seu ateísmo, uma convicção que tem quase a mesma força que uma fé. No entanto, "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" (1991) e "Caim", editado agora, são obras inspiradas pelas sagradas escrituras. "Sou ateu mas não sou tolo", explicou à revista brasileira "Isto É", em 1991, "a sociedade onde cresci e onde vivemos não se concebe sem Deus. Na arte, na linguagem, na cultura popular e erudita, a religião cristã está presente." Saramago defende que o seu ateísmo é crítico e construtivo, que as questões que coloca devem ser pensadas por crentes e não crentes. "Como ateu, leio os Evangelhos de um ponto de vista mais livre, como se fosse um grande livro de história. O meu ateísmo não é destrutivo, mas sim crítico", diz na mesma entrevista. A semana passada, durante uma deslocação a Roma para apresentar o seu novo livro (uma compilação de textos do blogue "O Caderno"), Saramago apontou baterias ao Vaticano, ali tão perto: "Que Ratzinger tenha a coragem de invocar Deus para reforçar o seu neo-medievalismo universal, um Deus que jamais viu, com que nunca se sentou a tomar um café, demonstra apenas o absoluto cinismo intelectual da personagem." À imprensa italiana descreveu-se como "um ateu tranquilo".
Iberismo
"Não sou profeta, mas Portugal acabará por integrar-se em Espanha", "Diário de Notícias", Julho de 2007
Depois de o governo português vetar a candidatura de "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" ao Prémio Literário Europeu, Saramago mudou-se para a ilha de Lanzarote, Espanha. Em auto-exílio desde 1992, o prémio Nobel foi bem recebido pelos leitores espanhóis e pela imprensa do país vizinho. A defesa do iberismo começaria pouco depois. "Não deixaríamos de falar português, não deixaríamos de escrever na nossa língua e, certamente, com dez milhões de habitantes, teríamos tudo a ganhar em desenvolvimento com esse tipo de aproximação e de integração territorial, administrativa e estrutural", disse em entrevista ao "Diário de Notícias", há dois anos. A Ibéria desejada pelo escritor encontra reflexo na fundação com o nome do autor de "Ensaio sobre a Cegueira". A Fundação José Saramago tem sede em Lisboa, Azinhaga (terra natal), Lanzarote e Castril, aldeia de origem da mulher, Pilar del Rio.
Pilar del Rio
"A Pilar, como se dissesse água", dedicatória em "Caim", livro publicado hoje
No novo livro de José Saramago nenhuma personagem tem o nome escrito com maiúsculas. Ao longo das quase 200 páginas de "Caim", a única pessoa identificada com primeiro e último nome grafados correctamente é Pilar del Rio - que não é, evidentemente, uma personagem da história. Contudo, desde que se conheceram, no final dos anos 80, que é dela o papel principal na vida do Nobel. Têm em comum o gosto pela literatura e o marxismo, conheceram-se em Lisboa quando a jornalista veio percorrer os caminhos do romance "O Ano da Morte de Ricardo Reis" e apaixonaram-se depois de terem lido poemas de Fernando Pessoa no Cemitério dos Prazeres. Saramago dedica-lhe todos os livros - nas reedições de obras antigas, trocou o nome da ex-mulher pelo da jornalista espanhola. Na Azinhaga, terra natal do escritor, a Rua José Saramago faz esquina com a Rua Pilar del Rio, ambas inauguradas em Maio do ano passado. "Faz de conta que é outro casamento", disse na altura à agência Lusa. O terceiro. Saramago e Pilar casaram- -se em Lisboa em 1998, e renovaram os votos em Castril, aldeia onde nasceu Pilar, nove anos depois.
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