Crime
Homem que decapitou a mãe poderá voltar a casa daqui a dois anos
por Rosa Ramos, Publicado em 17 de Outubro de 2009
João Canto confessou que matou a mãe, premeditou o crime e diz não estar arrependido. Foi internado e poderá regressar a casa em 2011
Ninguém se apercebeu de nada. O cadáver de uma mulher esteve uma semana dentro de uma despensa minúscula num T3 em S. Marcos, Sintra. Decapitado. A polícia só descobriu depois de João Canto ter confessado, voluntariamente, que matou a própria mãe.
Um ano depois, a 28 de Setembro passado, o tribunal de Sintra proferiu a sentença. As perícias da Medicina Legal concluíram que o autor do crime sofre de esquizofrenia. Por isso, foi considerado inimputável e internado compulsivamente por um período de três a 16 anos. Feitas as contas, descontado o tempo de prisão preventiva, o homicida, de 47 anos, poderá regressar a casa já em 2011, apesar de ter confessado o crime ao pormenor e de não se mostrar arrependido.
No Tribunal, perante um colectivo de juízes constituído só por mulheres, João Canto confessou que odiava a mãe: "Senti-me aliviado porque ela representava o cinismo e a hipocrisia da sociedade", justificou. O assassínio foi planeado minuciosamente desde 2005.
O relacionamento com a mãe, Maria Alcina, de 60 anos, piorou desde a morte do pai, ex-emigrante, em 1999. "Ela era epiléptica e ele fazia-lhe tudo. Limpava-lhe a casa, fazia-lhe a a comida. Só depois percebi que afinal ela não estava incapacitada e não precisava de ter feito o meu pai sofrer assim", explicou.
Na altura em que começou a preparar o crime, a mulher deixou-o e levou-lhe os dois filhos, ao fim de 14 anos de casamento. Aí, os preparativos intensificaram-se. O plano incluía matar-se, mas João entendia que a mãe teria de morrer primeiro, "para se cumprir a ordem natural das coisas".
Durante anos, premeditou o crime e comprou todos os objectos necessários para cumprir o rirual. Desactivou o telemóvel, cortou o telefone de casa, informou os familiares que em breve ia emigrar para a Nova Zelândia. No fim de Setembro do ano passado, disse à mãe que a queria levar a Almaceda, na zona de Castelo Branco, de onde era natural.
Foi buscá-la a casa, à Amadora, almoçaram e passaram por S. Marcos. Convidou-a a entrar para lhe mostrar umas fotografias antigas que tinha digitalizado. Quando a mãe se sentou ao computador, atingiu-a com uma picareta na cabeça e embrulhou o cadáver. Antes de o esconder na despensa, cortou-lhe a cabeça e foi guardá-la no congelador da casa da mãe. Durante uma semana, conviveu com o corpo e entreteu-se a destruir o apartamento. "Queria desvalorizá-lo para que o banco não ganhasse dinheiro com a venda", conta ao i uma vizinha. Dias depois, quando a polícia chegou ao local, ao final de uma tarde do início de Outubro, encontrou um cenário digno de um filme de terror: fórmulas matemáticas escritas nas paredes e, ao lado do cadáver, uma inscrição macabra: "os decepados são frescos", acompanhada da data de nascimento e de morte da mãe - 30 de Setembro.
O corpo estava dentro de um saco de plástico e envolvido numa espuma de poliuretano, usado na construção civil para encher paredes.
Depois de ter morto a mãe, João viajou para a pequena aldeia de Castelo Branco. Sozinho. Antes, levantou todo o dinheiro que tinha no banco e queimou-o já na aldeia. Foi em Almanceda que tentou o suicídio: espetou duas facas de cozinha no pescoço, mas não conseguiu morrer. Avisou a GNR e confessou tudo o que tinha feito em S. Marcos.
Francelina Ribeiro, a vizinha do andar de cima, não gosta de se lembrar do dia em chegou a casa, depois do trabalho, e encontrou a PSP à porta do prédio. "Não nos deixavam subir", recorda. Poucos minutos depois, chegou um outro carro da polícia. "Traziam uma caixa dentro de um saco de plástico vulgar, azul, daqueles do lixo. Lá dentro estava a cabeça". A polícia entrou no prédio, comparou-a com o corpo e, minutos depois, o cadáver foi removido.
O vidro da cozinha que os bombeiros partiram para entrar no apartamento continua estilhaçado. As janelas mantêm-se entreabertas desde então, para arejar. "Está tudo como foi deixado naquele dia", garante a vizinha. Quem conheceu João Canto acredita que o divórcio "esteve na origem da sua desorientação", mas Francelina admite que o vizinho era estranho: "Muito pálido, com barba e uns óculos muito grandes, de massa, com o cabelo comprido, oleoso, sempre de risco ao meio". Era um homem de rituais. Todos os dias, pouco depois das sete horas da manhã, saía de casa com sacos de plástico na mão e entrava no mesmo autocarro que a vizinha. Viajava até Paço de Arcos. Ao fim da tarde voltava, novamente com sacos na mão. "Era assim todos os dias e os sacos ora eram verdes ora eram azuis, devia ser mania dele", acredita Francelina.
Um ano depois, a porta do assassino continua selada e a vida no bairro continuou. "Durante muitas noites, não dormi. Às vezes, os meus filhos ainda brincam comigo e dizem: 'Olha que ainda encontras uma cabeça na despensa", diz a vizinha. Os moradores pensam, agora, em organizar um abaixo-assinado para evitar que João regresse a casa daqui a dois anos. "Tenho filhos pequenos e não posso permitir que não estejam em segurança", justifica Carina Briga, que mora no prédio do lado há quase 10 anos.
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