ENSAIO

Palestra anual Isaiah Berlin: Está a cultura ocidental a tornar-se pagã?

por João Carlos Espada, Publicado em 17 de Outubro de 2009   
Segundo o Rabi Steinsalts, "vivemos hoje num mundo ocidental que está esvaziado do cristianismo e do judeo-cristianismo. E este vazio está agora a ser preenchido por outra coisa, e essa outra coisa é o paganismo". Steinsalts afirma que "a cultura em que vivemos hoje é uma cultura pagã que não é muito diferente da que prevalecia no mundo há cerca de 2500 anos"
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Quando Isaiah Berlin morreu, em 1997, jornais de todo o mundo homenagearam "um dos maiores intelectuais do século XX". Oxford, a Universidade onde este judeu da Letónia se exilara, e à qual dedicou toda a sua vida, prestou-lhe também inúmeras homenagens. Entre elas, inclui-se a criação de uma palestra anual Isaiah Berlin.

A palestra deste ano foi proferida em Maio, pelo Rabi Adin Steinsaltz. A versão integral pode ser lida na edição de Outubro da revista britânica "Standpoint", editada pelo nosso amigo Daniel Johnson (filho do famoso historiador Paul Johnson). E a palestra gerou alguma perplexidade: o Rabi Steinsaltz falou sobre "a paganização da cultura ocidental". Vale a pena recordar algumas passagens.

HERANÇA GREGA E CRISTàDiferentemente do famoso preâmbulo à chamada "Constituição europeia", o Rabi Steinsaltz não hesita em apontar o Cristianismo como uma das raízes da cultura europeia e ocidental. Esta funda-se, explica ele, na mistura ou conversação entre a cultura grega e a cultura judaico-cristã. Trata-se de uma conversação que foi adquirindo várias tonalidades, ao longo dos dois mil anos de existência. Mas, apesar dessas mudanças de tonalidade, manteve sempre alguns elementos unificadores que permitiam identificá-la.

Na segunda metade do século XX, operaram-se ou acentuaram-se mudanças importantes na cultura ocidental. A capacidade tecnológica, que já era uma característica do Ocidente, acentuou-se tremendamente. Começou como um instrumento da civilização Ocidental e transformou-se num factor decisivo que muda e dá forma à nossa cultura. A tecnologia é particularmente poderosa no domínio da comunicação: rádio, televisão, internet, etc.

Em parte devido ao poder da tecnologia das comunicações, assistimos à crescente expansão da cultura Ocidental. A queda do muro de Berlim, em 1989, levou- -a para o centro e leste europeu. Mesmo a Rússia e a Ucrânia são hoje parte da cultura ocidental, diz o Rabi, mencionando também Israel, "em termos do que as pessoas vestem, do que lêem e escrevem, da música que ouvem e produzem".

O VAZIO Outra mudança importante, mesmo a mais importante segundo Steinsaltz, reside no progressivo desaparecimento da influência e do poder do Cristianismo na Europa. "Tem sido observado que o mundo ocidental vive agora no vazio que o Cristianismo deixou atrás de si", diz o nosso autor. E acrescenta:

"Penso que é uma muito boa definição da cultura ocidental contemporânea. [...] Vivemos hoje num mundo que está esvaziado do cristianismo e do judeo-cristianismo. E este vazio está agora a ser preenchido por outra coisa, e essa outra coisa é o paganismo."

DEUSES PAGÃOS Steinsaltz apressa-se a explicar que isto não significa que já não existam cristãos no Ocidente. Simplesmente, a visão cristã do mundo perdeu influência. E, no lugar do Deus judaico--cristão, existem agora os deuses pagãos da antiguidade pré-cristã - ainda que possam ter novos nomes, novas imagens e novos templos.

O primeiro desses deuses é Baal, o deus do poder, também por vezes designado por Mammon, o deus do dinheiro. Os seus templos estão nos centros financeiros das grandes cidades e os seus padres são hoje designados por executivos e gestores.

O segundo deus pagão contemporâneo corresponde à antiga deusa da fertilidade e do sexo: Astarte, ou Ishtar, ou Ashtoreth. Os templos desta deusa - que já não é propriamente da fertilidade, mas simplesmente do sexo - encontram-se um pouco por toda a parte na sociedade ocidental.

Finalmente, temos uma musa promovida a deusa: Calliope, deusa da fama, simbolizada hoje na expressão "celebridade". Ser uma celebridade significa "ser um ninguém muito conhecido", isto é, alguém que toda a gente conhece mas ninguém sabe exactamente o que faz ou por que merece ser célebre. Os templos desta deusa estão em todas as casas e chamam-se televisão.

CONSENSO JUDAICO-CRISTÃO Chegado a este ponto, o Rabi Steinsaltz interroga-se sobre se esta realidade é melhor ou pior da que existia antes no Ocidente. A resposta é intrigante: ele diz que não sabe e que não está a fazer juízos morais. Está apenas a descrever uma realidade. Basicamente, ele está a dizer que "a cultura em que vivemos hoje é uma cultura pagã que não é muito diferente da que prevalecia no mundo há cerca de 2500 anos."

No entanto, Steinsaltz sublinha que o judaísmo continua a ser hoje, como foi no tempo de Abraão, completamente contra os deuses pagãos. Por isso se dizia que "Abraão estava sozinho no mundo." E isso aplica-se hoje aos judeus e aos cristãos:

"O Judaísmo tinha muitas discordâncias com a antiga cultura Cristã da Europa, mas concordávamos com algumas das suas noções básicas: fé em Deus; a crença em que as nossas necessidades humanas não eram supremas; o entendimento de que o homem não é apenas senhor, mas também servo. Estes eram pontos de consenso entre a cultura judaica e a cristã, e até mesmo com o Islão, o Hinduísmo e o Budismo."

PLURALISMO Esta palestra do Rabi Steinsaltz é seguramente interessante, a mais do que um título. É também profundamente "berliniana". Na linha de Isaiah Berlin, ela é profundamente pluralista. Descreve uma situação em que um sistema de valores, o judaico-cristão, é gradualmente substituído por outro, que o Rabi designa por pagão. Esses sistemas de valores são diferentes e chocam entre si. Steinsaltz descreve as diferenças e o conflito entre os dois sistemas de valores.

Mas, quando pergunta qual deles é melhor, a sua resposta é neutra: ele não sabe. Tal como no pluralismo de Isaiah Berlin, os valores chocam e são mesmo incomensuráveis. Não existe uma posição imparcial a partir da qual fosse possível estabelecer uma hierarquia única de valores.

Em contrapartida, Steinsaltz sabe que, enquanto judeu, ele é contra os deuses pagãos. Só que isso não basta para dizer que, para um espectador imparcial, o Deus judaico-cristão é melhor do que os deuses pagãos.

RELATIVISMO Este paradoxo ilustra a crítica que vários autores dirigiram ao pluralismo de Isaiah Berlin: a de que esse pluralismo dificilmente se distingue do relativismo. Se os valores são incomensuráveis, eles acabam por ser arbitrários ou equivalentes.

VALORES E CONSEQUÊNCIAS Julgo que autores pluralistas como Karl Popper ou Friedrich Hayek tratariam este problema de forma ligeiramente diferente. Eles também aceitariam que os valores podem colidir e que não existe um critério indiscutível para decidir entre eles. Mas, para Popper ou Hayek, esse choque de valores não os tornava arbitrários ou equivalentes.

Os valores, tal como as ideias, produzem consequências. Essas consequências podem ser conhecidas e avaliadas pelas pessoas. Elas podem escolher, e em regra escolhem, a partir da comparação das consequências (a árvore conhece-se pelo fruto). Essa escolha processa-se por ensaio e erro, ao longo de várias gerações. É, em bom rigor, um processo sempre inacabado de diálogo, conflito, cooperação e concorrência entre culturas e civilizações.

DUAS PERGUNTAS A ser assim, duas grandes questões emergem da palestra de Adin Steinsaltz.A primeira, obviamente, consiste em saber se a sua descrição da mutação cultural ocidental corresponde ou não aos factos.

Se corresponder, a segunda pergunta não é menos complexa. Simplificando um pouco, reside em saber se a erosão dos valores greco-judaico-cristãos será compatível com a manutenção das consequências que resultaram desses valores, e que fizeram o sucesso mundial do Ocidente: a democracia política, o respeito pelos direitos humanos, o governo limitado pela lei, a economia de mercado e empresa livre. Podem estas consequências subsistir sem os valores que lhes deram origem? E podem estas consequências ser defendidas - e encontrar energias para serem defendidas - sem recurso aos valores que as geraram? Talvez esta pergunta não seja meramente académica. Voltaremos a ela em próximos ensaios.


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