Livros. Pirataria começa a preocupar a sério
por Randall Stross - exclusivo i /The New York Times, Publicado em 16 de Outubro de 2009
Os e-books demoraram a estabelecer-se, mas cada vez são mais comuns. Está aí o risco de uma pirataria parecida com a que ocorre na música
PODEMOS COMPRAR "O Símbolo Perdido", de Dan Brown, como e-book na Amazon por 9,99 dólares (6,69 euros). Também podemos pôr um chapéu de pirata e arranjar uma cópia gratuita em sites de armazenamento de ficheiros como o RapidShare, o Megaupload, o Hotfile ou outros.
Até agora, poucos leitores preferiam os livros electrónicos aos livros impressos ou às versões áudio, pelo que a disponibilidade pública das cópias gratuitas não era muito importante. Mas os e-books não ficarão muito tempo em segundo plano na edição. O equipamento necessário para os ler (e-readers) está a tornar-se comum, com ecrãs cada vez maiores. O mesmo se passa com os tablets que podem servir como e-readers gigantes, e o hardware que não é assim tão duro: um monitor fino, suficientemente flexível para ser enrolado num tubo.
Com os novos dispositivos à mão, será que os compradores de livros resistirão aos exemplares gratuitos, a apenas alguns cliques de distância, que estão disponíveis na internet sem a permissão do proprietário dos direitos? Conscientes do que aconteceu à indústria musical numa conjuntura de transição semelhante, os editores de livros estão prestes a descobrir se o seu negócio é suficientemente diferente para ser poupado ao mesmo destino.
Há muito tempo que os livreiros não recebem boas notícias. Os editores e os autores estão muito dependentes das vendas de livros de capa dura. A Associação de Editores Americanos estimou que estas vendas nos Estados Unidos baixaram 13% em 2008, relativamente ao ano anterior. Este ano, em Julho, baixaram 15,5%, relativamente ao mesmo mês de 2008. As vendas totais de livros electrónicos, se bem que consideravelmente mais altas este ano, permaneceram baixas, não ultrapassando 81,5 milhões de dólares, ou 1,6% do total de vendas de livros durante o mês de Julho.
"Estamos a assistir a muita pirataria online relativamente a todos os tipos de livros. Subiu praticamente em todas as categorias", afirma Ed McCoyd, director-executivo da associação. "Que acontece quando 20 a 30% dos leitores elegem a versão digital dos livros como a principal forma de ler? A pirataria torna-se uma preocupação importante."
Adam Rothberg, vice-presidente para a comunicação empresarial na Simon & Schuster, declara: "Toda a gente nesta área considera a pirataria uma questão importante, mas tem sido difícil quantificar a magnitude do problema. Sabemos que as pessoas disponibilizam ficheiros, mas não sabemos quantas pessoas vão buscá-los."
É um facto que as pessoas se têm servido da música digital sem pagar. Quando a música foi atacada pela partilha gratuita de ficheiros, a indústria sofreu um golpe do qual nunca recuperou. Desde o auge das vendas de música em 1999, o valor das vendas ajustado à inflação nos Estados Unidos, mesmo incluindo as da bem-sucedida iTunes Music Store da Apple, desceram para menos de metade, de acordo com a Associação Discográfica da América.
Um relatório realizado pela Federação Internacional da Indústria Fonográfica, baseado em estudos múltiplos em 16 países durante três anos, estimou que 95% dos downloads de música "não são autorizados, ocorrem sem lugar a qualquer pagamento aos artistas e produtores".
A partilha gratuita de ficheiros de livros electrónicos surgirá provavelmente associada à RapidShare, uma empresa de armazenamento de conteúdos com sede na Suíça. Esta diz que os seus clientes disponibilizaram nos seus servidores mais de 10 petabytes de ficheiros - mais de dez milhões de gigabytes - e podem suportar três milhões de utilizadores em simultâneo. Toda a gente pode disponibilizar e toda a gente pode descarregar; para os utilizadores de poucas quantidades, o serviço é gratuito. O RapidShare não faz uma listagem dos ficheiros - um utilizador deve conhecer o URL (impossível de adivinhar) para poder fazer o download.
Porém, quem pretender tornar um ficheiro facilmente acessível, simplesmente publica o URL e uma descrição online num blogue ou num fórum de discussão, e este ficará registado no Google e noutros motores de busca. Não há senhas a proteger os ficheiros.
"Tanto quanto podemos dizer, a RapidShare é o maior site de armazenamento de material pirateado", diz McCoyd. "Alguns editores afirmam que metade de todas as infracções estão relacionadas com ele."
Quando perguntámos a Katharina Scheid, porta-voz da RapidShare, se a empresa tinha noção do tipo de conteúdos que era mais frequentemente posto nos seus servidores - música, vídeos ou outros - esta afirmou não poder responder. "Para nós, tudo é apenas um ficheiro, não importa o quê."
A nosso pedido, a Attributor, uma empresa com sede em Redwood City, Califórnia, que oferece aos editores serviços antipirataria, realizou uma busca na semana passada para saber quantas cópias e-book de "O Símbolo Perdido" estavam disponíveis gratuitamente na net. Depois de verificar que cada ficheiro afirmando ser o livro o era, de facto, a Attributor encontrou 166 cópias disponíveis em 11 sites. A RapidShare era responsável por 102.
Scheid afirma que a sua empresa cumpre os requisitos dos editores. Porém, a exigência tem de referir-se a um ficheiro em particular e usar o URL específico; fica ao cuidado dos editores encontrarem todos os exemplares de um dado título nos servidores do RapidShare. (Podemos relatar que o RapidShare actuou prontamente em Setembro quando a editora Simon & Schuster lhe pediu que removesse uma versão áudio de um dos meus livros e forneceu o URL desse ficheiro.) De acordo com Scheid, a empresa recebe pedidos para retirar entre 1 e 2% dos ficheiros que são disponibilizados diariamente.
Para proteger a privacidade dos utilizadores, contudo, Scheid afirma que o RapidShare não começa por bloquear a disponibilização de material proibido: "Não fazemos filtragem de conteúdos, não analisamos ficheiros disponibilizados." Quando um ficheiro é removido, a empresa tenta evitar que ficheiros perfeitamente idênticos sejam novamente disponibilizados, mas enumerou várias formas de os utilizadores poderem alterar os ficheiros apenas o suficiente para contornar eficazmente essas medidas. (O meu livro reapareceu no RapidShare poucos dias depois de ter sido removido.) O Hotfile e o Megaupload não responderam aos pedidos de comentários.
O RapidShare e sites idênticos de armazenamento online afirmam que os seus serviços ajudam os utilizadores a partilhar facilmente ficheiros grandes ou a armazenar dados pessoais sem terem de usar cartão de memória. Na página dedicada às perguntas frequentes do seu website, o Megaupload descreve os seus clientes como os cidadãos mais vulgares: "Estudantes, profissionais de negócios, mães, pais, médicos, canalizadores, vendedores de seguros, e por aí fora."
Editores e autores são praticamente as únicas categorias não mencionadas. Scheid, da RapidShare, tem um conselho para eles caso não lhes agrade que os utilizadores da sua empresa estejam a distribuir e-books sem pagar os direitos: sigam o exemplo da banda Nine Inch Nails, que fez o seu marketing "distribuindo gratuitamente a maior parte dos seus conteúdos".
Eu próprio seguirei a sugestão, assim que os autores chamarem multidões aos estádios e os e-books pirateados co-meçarem a servir como folhetos de promoção.
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